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Podia ser pior

Passámos o último ano e meio a tentar ver o copo meio cheio, carregado de coisas boas que a pandemia nos trouxe. Claro que essas coisas não existem mas a nossa criatividade, e necessidade de não mergulhar numa profunda neura, fazem-nos acreditar que sim.

Por isso trago mais um tópico para juntar à lista: ao menos este ano não vamos ver dezenas e dezenas de reportagens em directo de praças e pracinhas de Portugal, onde milhares de portugueses, em simultâneo, levaram as mãos à cabeça quando o ecrã gigante lhes mostrou aquele livre de Ronaldo que esbarrou nos seus colegas ou aquela bola de Raphael Guerreiro ao poste. Do mal o menos. Sofremos cada um em sua casa, longe dessas "fun zones" que se transformam em "zonas deprimentes" sempre que Portugal é eliminado. Os portugueses estão habituados a sofrer para dentro (a não ser os fadistas, que extravasam). Assim podemos fingir que nada disto aconteceu. Outra vantagem que veio à boleia da covid 19: ausência quase total de turistas em Portugal. Assim não corremos o risco de nos cruzarmos com um belga, quando formos dar a nossa corridinha matinal ou almoçar numa esplanada. Os grandes aglomerados ajudam a propagar o vírus e também a amplificar o desgosto. Ver os esgares de dor de milhares de portugueses a cada remate de Bruno Fernandes para fora seria demasiado para mim. Nem imagino a revolta das centenas, milhares, de compatriotas que se dirigiram a Sevilha depois do apelo de Ferro Rodrigues, convencidos de que iam assistir a uma coisa boa. Apenas mais um capítulo de "Ferro Rodrigues faz pouco dos portugueses". Disse-nos para ir mas não foi. Mesmo como quem já adivinha que vamos ter Hazard (esta vai estar hoje nas primeiras páginas dos desportivos, não vai?). Faço o mesmo que o presidente da Assembleia da República quando quero que os meus filhos comam couves de Bruxelas. Finjo que a mãe e o pai também papam, mas não. É só para os convencer de que vão gostar... Agora que acabou tudo não vou fazer considerações sobre as opções de Fernando Santos mas vou fazer sobre as minhas. Fiz bem em ter ficado em casa, sozinha, a ver o jogo. Assim não tenho de carpir mágoas com ninguém, estou aqui a ver o All Together Now e a torcer pela mulher do Palhinha, a ver se alguém remotamente relacionado com a nossa selecção ganha alguma coisa!

Humorista

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