Opinião

Portugal, 2031

Março de 2031, Palácio da Ajuda. Está prestes a começar a cerimónia de tomada de posse do novo Governo, depois da mais participada eleição de sempre, realizada através do 760 123 456, e colocada nos seguintes termos "deve o primeiro-ministro abandonar a casa mais vigiada do país?".

Os convidados vão chegando a conta-gotas. Os primeiros a chegar foram Nuno Graciano, edil de Lisboa, e Rute Marques, presidente da Câmara do Porto. Riem muito enquanto preparam um apanhado divertidíssimo: quem se sentar em certas cadeiras vai cair para trás, para delírio do público lá em casa. A ministra dos Negócios Estrangeiros, Merche Romero, chega na companhia do ministro da Economia, Humberto Bernardo, recentemente envolvido na polémica da adjudicação de um projeto ao segundo classificado do concurso público, em vez do primeiro.

O secretário de Estado da Agricultura e do Desenvolvimento mostra-se satisfeito por ter conseguido finalmente alterar a designação da sua Secretaria de Estado, que passa assim a ser da Agricultura e do Desenvolvimento Pessoal, para júbilo do dr. Gustavo Santos. A ministra da Agricultura, Cinha Jardim, diz que depois de ter ouvido os argumentos do secretário de Estado, que lhe mereceram a maior atenção, não ficou convencida. Mas como depois ele a ajudou a transportar a sua porca Pepa até à Feira da Golegã para uma presença, resolveu apoiá-lo nessa intenção. Afinal de contas, era apenas acrescentar "pessoal", coisa que Cinha estava habituada a fazer nas "guest lists" das festas da irmã, Xenica Jardim, ex-organizadora de eventos, atual assessora do ministro da Coesão Territorial, Joaquim Alberto, anteriormente conhecido por Quimbé.

Um dos grandes ausentes desta tomada de posse foi Carlos Alberto Moniz, ministro das Infraestruturas e Habitação, que tem sido muito falado ultimamente por ter referido "a casa do Tio Carlos" como experiência mais relevante na área. As novas caras deste executivo dominaram as conversas, já que nem todos veem com bons olhos a substituição de Joaquim Guerreiro, antigo Ulisses do programa "Ai, os homens" por Marco Borges, veterano do "Big Brother" com ar de veterano do Vietname, na pasta da Defesa Nacional. Já Carlos Ribeiro no Ministério da Cultura parece causar menos celeuma, até porque Maria Vieira já acusava desgaste, e Ribeiro sempre acarinhou o que é "Made in Portugal".

Também na Secretaria de Estado para a Transição Digital houve mudanças, com a entrada de Paulo Borges, que pediu encarecidamente que parassem de lhe chamar Wuant, pedido esse que em princípio será ignorado, tal como aconteceu com o seu antecessor, Windoh. A última semana foi marcada pela apresentação de propostas polémicas: a ministra da Modernização do Estado, Gisela Serrano, propôs que todas as mulheres da Função Pública usassem gelinho, a ministra da Justiça, Manuela Moura Guedes, exigiu um regime excecional de prisão perpétua para o embaixador José Sócrates, que continua a fazer carreira diplomática em França, e o ministro da Saúde, Melão, em entrevista, voltou a insistir na importância da fruta para mantermos o sistema imunitário forte, apesar das perguntas terem a ver com a robustez do SNS.

A cerimónia teve início com quase cinquenta minutos de atraso, motivados também pela queda aparatosa do ministro da Administração Interna, Guilherme Leite, na 1.ª fila, atingindo na queda o ministro da Educação, Jorge Kapinha. Foram ambos assistidos no local enquanto o ministro Melão gritava "comam antes uma peça de fruta que vos faz melhor que betadine!" Mas a grande responsável pela demora foi Sua Excelência Presidente da República, dra. Cristina Ferreira, que fez saber que não marcaria presença na tomada de posse por motivos de "esta palhaçada já foi longe demais" e "chamem lá políticos a sério outra vez".

Indiferente às críticas da chefe de Estado, o primeiro-ministro André Ventura avança pelo salão nobre adentro, debaixo de uma enorme salva de palmas, a pedido do animador de público, que puxa pelos cidadãos figurantes presentes, e começa o seu discurso com uma pergunta: "ainda se lembram de quando, há dez anos, eles acreditaram que nós éramos de extrema-direita, e não simplesmente malta que adora protagonismo?". A sala explodiu numa gargalhada, não se sabe se por causa do discurso ou pela queda do ministro do Ambiente, Zezé Camarinha, felizmente sem gravidade, estando por isso apto a viajar até Paris, onde será discutido o estatuto de património mundial para a praia da Rocha.

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