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Prognóstico? Reservado vale o que vale

Prognóstico? Reservado vale o que vale

Espero que por esta altura já todos saibam o novo hino nacional. Todos em pé, mão no peito, e cá vai: "Ce sont les meilleures équipes, sie sind die allerbesten mannschaften, the main event! Die meister. Die besten. Les grandes équipes. The Champions!".

O hino da Liga dos Campeões exige maiores dotes vocais do que um simples "heróis do mar" mas acho que vale o esforço. Vamos todos tentar chegar umas oitavas acima, e receber de braços abertos os oito finalistas da Champions, ao mesmo tempo que fingimos que valeu a pena todo o esforço.

Mas mesmo todo. Aquela quarentena, fechados em casa (sobretudo os que a passaram com a sogra), aqueles negócios que não conseguiram reabrir, as empresas que acabaram mesmo por fechar, os miúdos enclausurados em casa, há meses sem aulas, os funerais que não podiam ter mais de cinco pessoas, incluindo provavelmente o morto, os casamentos adiados, os divórcios que não se fizeram mais esperar (sobretudo naqueles casais que partilhavam o T1 com a sogra), os voos cancelados, as consultas adiadas, as listas de espera, os infetados, os que os trataram, os que adoeceram a tratá-los, e os que já não estão cá para assistir a isto.

Que pena, não é? Raio de azar. Não tanto por serem vítimas de um novo vírus, ainda sem cura, mas por morrerem logo no ano em que o país explode de contentamento por receber a maior competição de clubes do Mundo. É o chamado morrer na praia. Num ano em que é desaconselhado ir à praia com família alargada mas é mais que aconselhável receber oito equipas e respetivas comitivas, vindas dos quatro cantos da Europa. E daqui a uns tempos chega a Web Summit, o que nos leva a pensar que afinal o Nos Alive ou o Rock in Rio só foram cancelados porque a música alta ajuda à propagação do vírus. Com exceção daquela dos Queen que começa com "I"ve paid my dues... time after time"... O "We are the champions", segundo a OMS, a UEFA, e um curandeiro de Alverca que é maluco por bola, até ajuda a curar problemas respiratórios, quando entoado a plenos pulmões.

Às vezes, dou por mim a pensar que tenho de ligar menos ao futebol. Aconteceu ainda esta semana, depois de um Aves-Porto em que não só tive afrontamentos e palpitações, como sonhei que um amigo me ligava, a informar que eu tinha desligado a televisão antes de tempo, e o Porto ainda tinha marcado. Fiquei desiludida ao acordar, esquecendo os ensinamentos de todos os gurus de autoajuda, que nos lembram que devemos ser gratos por cada amanhecer.

O pior é que às horas a que me levanto ainda está escuro, e antes de o sol nascer vou espreitar os jornais desportivos. Mas a importância desmesurada dada ao futebol, no meu caso, não me traz problemas de maior... Já a importância dada por presidente da República, primeiro-ministro, presidente da Assembleia da República, presidente da Câmara de Lisboa, ministro da Educação (!), ministra da Saúde (!!) e os demais convocados para aquela apresentação espampanante da fase final da Champions em Portugal é capaz de nos tramar a vida.

Tem muito mais implicações do que a possibilidade de eu dormir mal na noite que antecede o derby. Ambos os casos são estúpidos e desnecessários, mas enquanto que o primeiro só causa olheiras, o segundo pode causar mortes. E não há ninguém que possa garantir que não causará. Por isso, ignoram esse pormenor, e o pormenor de Ceferin ter dito que a UEFA ainda vai tentar que seja possível ter público (mesmo que não seja, sabemos que o público virá na mesma, basta ver o que aconteceu em Nápoles com a vitória numa taça), e centram-se em coisas realmente importantes, como o prestígio de ter Messi ou Neymar a respirar o mesmo ar que nós (mesmo que seja ar com gotículas contaminadas), e a excelente publicidade que faremos a Lisboa e ao país...

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Propaganda essa que me parece desnecessária: já andamos nas bocas do Mundo por sermos das nações europeias onde a epidemia está mais descontrolada... Pelo menos gregos, austríacos ou dinamarqueses já nos conhecem bem. Tão bem, que não deixam portugueses lá entrar, apesar da reabertura das fronteiras. E pensar que começámos tão bem: arrancámos para a pandemia cheios de confiança e já se falava em "milagre português". A nossa bazófia foi o equivalente a reservar o Marquês antes de o campeonato estar ganho.

Agora, está a acontecer o que tantas vezes acontece na bola: os minutos finais estão a ser desastrosos, e de repente podemos deitar tudo a perder. Tínhamos uma vantagem confortável de três a zero, já estamos empatados e, se não mudarmos de estratégia, antevê-se uma derrota estrondosa. Daquelas que acabam com os jogadores estirados no relvado, exaustos e em pranto. Quem diz futebolistas diz médicos. Esses mal-agradecidos, que não ficaram contentes com a organização de umas futeboladas cá no burgo.

Humorista

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