Opinião

Quem tem medo não compra um cão

Quem tem medo não compra um cão

Corria o ano de 1993, mais coisa, menos coisa, quando a pequena Joana Marques, aluna da 2.ª classe, numa visita de estudo a uma exposição da Proteção Civil, teve a honra de ser a escolhida para entrar em primeiro lugar numa "diversão" que eles lá tinham.

E aqui "diversão" surge entre aspas porque já na altura não lhe pareceu assim tão divertido. Esta Joana Marques que vos escreve agora não sabe descrever com grande pormenor que divertimento era aquele, nem que mensagem educativa sobre proteção civil pretendia passar, lembra-se apenas disto: subia-se para uma plataforma e depois havia duas hipóteses para descer: um costumeiro e até aborrecido escorrega ou um emocionante varão daqueles dos bombeiros... Escusado será dizer que Joana optou pelo já conhecido escorrega, uma rampa de plástico que não compromete e que cumpria perfeitamente o papel de a levar até terra firme. Os coleguinhas que seguidamente se atiraram, num afã louco, para dentro daquela atração escolheram todos, sem exceção, descer a grande velocidade pelo varão, como se fossem da corporação de bombeiros de Mangualde e tivessem um fogo para apagar agora às cinco. Dúvidas houvesse, Joana percebeu naquele momento que era a mais medrosa da turma. E quem sabe da escola, da cidade, do país. Não deixa de ser uma medalha. Não tão valiosa como aquelas que os bombeiros normalmente recebem, depois dos seus feitos heroicos, mas cada um é para o que nasce. Eu nasci mais para ser salva do que para salvar. A não ser que, de repente, em 2020, estivéssemos perante uma epidemia em que o medo pudesse proteger-nos. Foi a primeira vez, em 34 anos de cobarde existência, que este meu defeito foi visto, ainda que por pouco tempo, como uma qualidade. De repente, podia camuflar o meu medo e fazê-lo passar apenas por responsabilidade e elevado sentido cívico, coisa impossível em episódios passados: quando desisti de descer do escorrega mais alto do Slide & Splash e tive de passar, envergonhada, por toda a fila de bravos heróis do parque aquático, por exemplo. Não podia alegar estar a fazer aquilo para o bem comum. "Nem é por mim, mas o facto de eu arriscar pode ser perigoso para população de risco como a minha avó", é uma desculpa só aplicável agora, impossível de usar quando recusei fazer bungee jumping. E kart cross. E mergulho. E voar de balão de ar quente. E dar uma festinha a um hamster. E furar as orelhas. Pela primeira vez, a minha cagufa patológica passou quase como normal, durante uns bons dois meses. O medo de coisas aparentemente inofensivas tornou-se no "novo normal" e eu senti-me, finalmente, uma anormal acompanhada. Até que chegou o Dia D, dia do desconfinamento, e as pessoas retomaram o velho normal. Sem medos. Lá foram elas, aos seus restaurantes de eleição, a casa daqueles familiares que não se elegem mas, enfim, foi o que nos calhou, às lojas, às praias, aos centros de estética (pela ordem inversa, que é importante frequentar estes últimos antes de usar fato de banho), voltaram à vida de sempre, e esqueceram dias de intensivos relatórios da DGS com números que continuam, mais coisa, menos coisa, na mesma. Ora, um medroso não esquece. O maior problema do medroso é precisamente a sua capacidade de armazenamento de informação potencialmente assustadora. Porque é que fico sobressaltada quando me dói uma unha do pé? Porque certo dia li um artigo sobre um caso clínico que começou assim e redundou em morte. Em última análise, todo o medo é estúpido, porque todas as vidas redundam em morte. É um desfecho inevitável. Gostava de ser como aquelas pessoas que pensam "para quê estar aqui a dar-me ao trabalho de me besuntar com álcool-gel, se amanhã posso ir a atravessar a rua e ser atropelado por uma carrinha de caixa aberta?". Nunca me ocorreria tal pensamento, porque sei que amanhã não vou sair de casa. Nem no dia seguinte. Nem no outro. Se dependesse de mim, ficava aqui enclausurada até me dizerem "pode vir tomar a vacina anticovid, na terça-feira, às 15 horas". E até descobrirem a cura para todas as doenças, e a sinistralidade rodoviária ser reduzida a zero, e não haver ponta de criminalidade violenta para o Hernâni Carvalho comentar na TV, e não se verem cães a passear sem trela, com os donos a dizerem "não se preocupe que ele não morde". Normalmente, é a última frase que a vítima ouve antes de ser abocanhada. Há um estudo sobre isso, já li algures. Sim, o velho conselho "quem tem medo compra um cão" sempre me soou particularmente ofensivo. E quem tem medo de cães? Caça com gato? Ainda são mais assustadores. Quem tem medo de tudo não tem outro remédio senão ficar em casa, convivendo com o medo de fugas de gás ou tremores de terra. Falaram-me disso na tal visita à Proteção Civil em 93 e não esqueci. À mínima vibração, corro logo para a ombreira da porta. Normalmente, é só o telemóvel.

*Humorista

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