Opinião

Salvar o Natal

"Os PJ Masks salvam o Natal", "Noddy salva o Natal", "Os Super Monstrinhos salvam o Natal", "Ruca salva o Natal", "A Patrulha Pata salva o Natal". Estes foram os títulos que encontrei, numa rápida pesquisa por "salvar o Natal". Dá ideia de que, além de desenhos animados, apenas o Governo português teve uma vontade igualmente férrea de salvar a consoada.

Quem diria que António Costa e a cadelinha Zuma teriam o mesmo desígnio! E não ficam por aqui as semelhanças: ambos nos tratam como crianças.

Levaram-nos a crer que não havia problema de reunirmos a família no Natal, e nós resolvemos acreditar. Afinal de contas, é uma época que convida à imaginação. Se fazemos crer aos nossos filhos que o Pai Natal existe, porque não acreditarmos, só por um dia (ou dois) que a covid-19 não existe? É por isso que acho que todos os atores, protagonistas ou figurantes, não devem ser esquecidos quando, na próxima edição dos Oscars, o épico filme "O Governo português salva o Natal" arrecadar a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro. O prémio é de todos! Apesar de ainda estar em fase de rodagem, já foram revelados alguns pormenores deste que promete ser o filme português mais visto de sempre: será realizado por Quentin Tarantino, que tem uma especial apetência por histórias violentas, e será protagonizado por Rui Portugal. Sim, aquele senhor de bigode monárquico e aquele tom de Poupas da Rua Sésamo. Parece-me a pessoa certa para o papel. Uma das cenas mais emotivas do filme será o célebre "discurso das compotas", equivalente ao de William Wallace em "Braveheart". Aliás, o mote do filme de Mel Gibson funciona perfeitamente aqui, qualquer coisa como: "eles podem tirar-nos a vida, mas nunca nos vão tirar a liberdade". Foi mais ou menos isto que muitos portugueses disseram, em uníssono (e sem máscara nem distanciamento) nas ceias de Natal. Não admitem que lhes retirem a liberdade. Só que não pretendem usá-la para os mesmos fins que a personagem de Gibson: um quer motivar os seus soldados, os outros querem reunir as tropas para comer rabanadas. No filme, o herói medieval diz ao exército que não se importa de morrer em nome de um futuro melhor para o seu povo. No nosso Natal, os heróis medievais dizem que não se importam que morra o avô, que também não ia ter um futuro por aí além. Aquilo que se ouviu nas entrelinhas do discurso das autoridades competentes (e uso o adjetivo "competente" só para fins humorísticos) foi: "divirtam-se muito no Natal, que um dia não são dias, e depois logo retomamos os cuidados". Isto é o que esperamos ouvir de uma nutricionista, não da Direcção-Geral de Saúde...

As pessoas não admitem que se lhes roube o Natal, aquela oportunidade única de conviver com os tios, mas admitem que se lhes roubem os tios, que assim não poderão estar presentes no Natal de 2021. Este filme, em que todos sabemos que se morre no fim (só não sabemos quantos), chegará em breve às salas. Para já, está apenas nos quartos. De hospital.

Mas vejamos o copo meio cheio: salvámos ou não o Natal? Importa dar os parabéns a quem cumpre o que prometeu! António Costa conseguiu resgatar o Natal das garras do vilão coronavírus, e também tinha prometido um mês de janeiro muito difícil. Para quem pensava que se referia às filas para trocas na Zara, desengane-se. Filas em janeiro só para entrar no Hospital de São João. Até há já quem venha de Lisboa de propósito! Eu não sei como é que é o Natal na casa de alguns portugueses, mas confesso ter até uma pontinha de inveja. Deve ser uma festa de arromba, para não a trocarem por nada e acharem que compensa esta ressaca. Ficaram mais indignados com o possível cancelamento da consoada do que com o consumado cancelamento da atividade programada dos hospitais. As vossas famílias alargadas devem ser espectaculares, já que aceitaram de bom grado que os Foo Fighters viessem ao Rock in Rio só para o ano, mas não podem esperar uns meses para ouvir as anedotas do primo Fernando. Os números de infetados, revelados nos últimos dias, são muito mais elucidativos para os candidatos à Presidência da República do que qualquer sondagem: os portugueses votarão em quem oferecer guloseimas, e não em quem prometer levá-los ao dentista. Somos uma nação com mais de 800 anos mas em termos de idade mental ainda estamos nos cinco. Para o ano entramos na primária e em princípio o raciocínio lógico começa a apresentar progressos. Até lá, é provável que ainda tenhamos que sobreviver à operação de salvamento do Carnaval.

*Humorista

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