Joana Marques

Serviço Nacional de Seja-o-que-Deus-quiser

Serviço Nacional de Seja-o-que-Deus-quiser

Num país em que tanto se diz "o que é preciso é saudinha", este diminutivo faz mais sentido do que nunca, porque a saúde em Portugal é uma caricatura do que já foi.

O que é estranho, tendo em conta os avanços da medicina. Neste momento, a experiência de um utente do Serviço Nacional de Saúde é pior do que era há uma década, e se continuarmos a regredir a este ritmo ainda vai dar-se o caso de chegarmos ao hospital com apendicite, e sermos recebidos por um cirurgião com uma faca de cozinha e um alicate. Estou a exagerar, claro! Fui otimista nesta previsão. O mais certo é não haver, além de material, médicos. A rececionista dá-nos os instrumentos medievais e indica-nos o caminho do bloco operatório. Cada um por si. Claro que teremos de aguardar, porque antes de nós entrou um senhor de noventa anos que já não vê muito bem e está a tentar suturar-se. Isto está bom para os movimentos antivacinação, que acabarão por conseguir o que querem, quando houver listas de espera de 17 anos para a vacina contra o tétano.

Antigamente, a nossa preocupação, incutida pelas nossas queridas mães, era não sair de casa com roupa interior rota, porque podíamos ir parar ao hospital e depois era uma grande vergonha para a família... Nunca percebi se as mães se ralavam mais com a possibilidade de os filhos serem atropelados por um furgão a circular em excesso de velocidade, ou com a certeza de que, chegando ao hospital maltrapilhos, seriam admoestados. Hoje, podemos ir para o hospital todos esburacados, com tiros de caçadeira mesmo, que ninguém vai notar. Todos têm mais que fazer. E todos são muito poucos. E eu compreendo-os. Porque é que médicos do Garcia de Orta hão de querer trabalhar em cenário de guerra? Se esse fosse o sonho deles, tinham ido para o Sudão do Sul, que oferece um pack de experiência completo. Estar em cidades civilizadas e ter de trabalhar como se estivessem naquelas tendas de hospital de campanha faz lembrar aquelas pessoas que vão para o mato fazer cursos de sobrevivência. Gente que vive confortavelmente de segunda a sexta mas que paga para que alguém, no fim de semana, os deixe no meio do mato, apenas com um canivete suíço estilo MacGyver, a passar frio, a apanhar chuva, a matar animais para comer e a tentar chegar vivo a domingo. O pior é que nem sempre é tão fácil sobreviver no SNS como na serra da Carregueira. É o tipo de team building que ninguém pretende fazer: um internamento num hospital público. Mas, à partida, é um risco que não corremos. As camas disponíveis são tão poucas, que dificilmente nos internam... na melhor das hipóteses, alugam-nos uma daquelas macas que ficam no corredor uma semana, ali entre a impressora e o saquinho de soro do paciente do lado. E já é bom! Dão-nos a chance de ficar por ali, a ouvir as conversas dos médicos sobre a ministra da saúde. Em termos de vernáculo, deve ser como uma ida ao futebol. Talvez o chefe de serviço nos peça para lhe passarmos a folha que está a atolar a bandeja da impressora. Se espreitarmos (perdoem-nos a curiosidade, mas estamos há 79 horas à espera), provavelmente leremos um pedido de escusa como este: "Não estão reunidas as condições para a prestação de cuidados de saúde de qualidade e com a necessária segurança, que permitam assegurar o exercício da profissão segundo a legis artis", que foi afixado recentemente nos hospitais Santa Maria e Pulido Valente. Trocado por miúdos (para não ser como aqueles médicos que nos dizem que temos um exantema, em vez de dizerem logo que é uma mancha), os chefes de serviço avisam que não se responsabilizam pelo que possa correr mal. Era como entrarmos num voo da TAP e ouvirmos o piloto anunciar: "Em princípio, não temos combustível suficiente para chegar ao destino. Caso sobreviva, e pretenda reclamar, é favor contactar o ministério responsável". Em ambos os casos, resta fazer figas ou rezar para ter sorte. Talvez seja por isso que se usa cada vez mais o "que Deus lhe dê saúde", porque os médicos aparentemente, mesmo querendo, já não podem dar. Depois de um verão em que era impossível nascer numa série de hospitais, chegou um outono em que não há pediatras em Almada, e anuncia-se um inverno sem cirurgiões nas urgências em Faro... Ano novo, vida nova? Espero que sim, mas pelo sim pelo não, tenham cuidado no réveillon, que não há ninguém para vos atender no INEM.

Para Greta Thunberg que, de facto, vai mudando o Mundo à sua maneira. Ao passar por Portugal, a caminho da Cimeira de Madrid, levou uma data de jornalistas a enfiarem-se no comboio que a transportou até à capital espanhola. Já dentro do comboio, Greta nunca saiu da sua carruagem nem prestou declarações. Se soubessem que isto ia acontecer, os repórteres provavelmente não perderiam aquelas dez horas, teriam apanhado um avião e aterrando passadas duas horas no aeroporto de Barajas, emitindo grandes quantidades de CO2 pelo caminho. Bem jogado, Greta!

*Humorista

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