Opinião

Treinadores há muitos, seu palerma!

Treinadores há muitos, seu palerma!

Muito se fala do problema dos problemas ambientais causados pelo uso de materiais descartáveis (desde cotonetes a copos de plástico), mas não se fala do mau ambiente criado pelo descartar de treinadores de futebol.

Uma notícia de 2017 dava conta de que a Liga Portuguesa era a que mais despedia treinadores em toda a Europa. Nessa época, 16 treinadores foram corridos dos respetivos clubes. Portugal, país ambicioso, decidiu subir a parada e este ano já vamos em 19 rescisões (com justa, injusta ou causa desconhecida), sendo com certeza já o melhor do Mundo no que toca a despedir.

Somos uma espécie de CR7 das quebras de contrato. Nação valente e implacável no que toca a funcionários incompetentes. Mas só no futebol. E só num cargo específico. Nunca se viu esta razia nos roupeiros nem nos fisioterapeutas. E nos jogadores, então, muito menos. Ninguém despede um jogador, por muita incompetência que ele tenha demonstrado.

Na pior das hipóteses, tentam impingi-lo a um qualquer clube turco. A verdade é que o jogador vale muito dinheiro e o treinador, se não for o Rúben Amorim, não. Os clubes recorrem sempre àquela meia-verdade: "é mais fácil despedir o treinador do que o plantel todo". Olhem se usássemos este raciocino nas outras áreas de atividade.

"Despedimos o diretor-geral porque era mais fácil, apesar de terem sido aqueles quatro idiotas do departamento de logística a fazer porcaria". Qualquer dia, teremos de criar um corredor próprio, nos centros de emprego, para treinadores de futebol. No fundo, é um trabalho sazonal, como tantos outros.

Há quem vá para a apanha do morango, há quem seja treinador do Sporting de Braga. Os primeiros parecem sofrem mais: trabalham de sol a sol e ganham mal. Os segundos, têm de aturar António Salvador, e talvez por isso deem por si a desejar um trabalho na lavoura.

A última semana deste campeonato atípico foi bom exemplo do comportamento típico dos dirigentes desportivos. Despede-se o treinador e depois logo se vê. Mesmo que não haja outro na calha. Mesmo que esteja a acabar a época. Mesmo que seja o 5.º treinador do ano. Mesmo que tenhamos de pagar-lhe um balúrdio de indemnização. Mesmo que há um ano, ou há uma semana, disséssemos que era o maior e que ficaria aqui para sempre.

Já aconteceu, se não em todos, em quase todos os clubes deste pequeno retângulo, que vibra tanto com o que se passa dentro do retângulo de jogo, que às vezes perde o discernimento. Os clubes parecem ser geridos da mesma forma que as minhas emoções durante 90 minutos de um jogo: quando se dá o apito inicial, acho-os a todos lindos e maravilhosos (menos o árbitro, que só o timbre do sibilo já me está a enervar), ao primeiro falhanço detesto-os, e sempre soube que não iam a lado nenhum, quando marcam golo voltam a ser incríveis, melhores que Maradona e van Basten juntos, grande defesa do nosso guarda-redes, "vamos ganhar!", golo do adversário, "este guarda-redes é péssimo", rematando com um "vão perder, não só o jogo mas o campeonato".

Regista-se sempre esta curiosa mudança da pessoa gramatical. Começamos na 1.ª do plural, com um inclusivo "nós vamos vencer", mas quando deixamos de estar em 1.º lugar passamos para uma fria 3.ª pessoa: "eles não jogam nada". E no discurso dos presidentes também há muitas vezes este sacudir da água do capote, mesmo quando estão 40 graus, porque, raios, é julho, e já devíamos ter acabado com o futebol a sério há que tempos, e estar apenas a ver o Torneio do Guadiana, com os reforços do Sporting a golearem o Betis.

Maldita covid. Não quero com isto dizer que o presidente do SLB está errado por ter despedido o treinador, num momento em que a distância para o 1.º classificado era de seis míseros pontos, ou que o homem que comanda o Braga troca demasiado de "mister" (aposto que até a escolha de camisas envolve mais ponderação, para ver se o colarinho assenta bem), ou que a malta do Gil Vicente enlouqueceu, ao anunciar novo treinador para o próximo ano sem dar cavaco ao atual, ou que o Vitória de Setúbal ficou demasiado entusiasmado com a reabertura de fronteiras com Espanha e quis reenviar precocemente Velázquez para casa.

Cada um faz o que bem entende com o dinheiro que tem (ou o que não tem, que é normalmente o que se usa mais no futebol). Se agora a moda é mudar de "projeto" a três semanas do fim da temporada, quem sou eu para discordar? Nunca percebi nada de tendências. Se me dizem que o que está a dar, neste verão, são vestidos caicai e treinadores interinos, tenho mais é que aceitar.

Nota: sei que o título da crónica parecia um insulto ao presidente do SLB, mas vai-se a ver e era apenas uma inocente citação de Vasco Santana. Resolvi poupar Vieira, apesar de "palerma" ter sido a coisa mais suave que ouviu dos seus associados nos últimos tempos.

*Humorista

Outras Notícias