Opinião

Um francês e um português entram num bar

Um francês e um português entram num bar

Um francês gozou com um português. Parece a descrição de uma segunda-feira normal em Paris, mas desta vez tornou-se notícia, por dois motivos: Philippe Caverivière fê-lo em direto na rádio e os portugueses resolveram ofender-se. Digo "os portugueses" obviamente generalizando, foi com certeza uma ínfima parte de 10 milhões.

Espero que não se ofendam agora comigo, vossa compatriota, por ter tomado a parte pelo todo, como fez o Philippe. E até teriam razões para isso, porque acusar-vos de se ofenderem com o que diz um humorista francês parece-me mais grave do que acusar-vos de se vestirem mal, como disse o humorista francês.

Vamos então à matéria de facto, para podermos julgar Caverivière na praça pública em condições, e decidir se merece ir para a fogueira ou apenas prisão perpétua. Num programa de rádio da RTL, Philippe partilhou com os colegas impressões da sua visita a Portugal, aproveitando o mote para fazer uma paródia sobre portugueses. Começou por dizer que a diferença horária para Portugal é de menos uma hora no relógio e menos 12 anos da roupa. Aliás, até nisso Philippe foi meigo, porque se ateve à moda, quando podia ter optado por destacar defeitos mais desagradáveis, como a falta de higiene que nós habitualmente apontamos aos franceses. O nosso estereótipo de francês é um tipo avesso a banho, que transporta baguetes debaixo do braço. Ou seja, também é pouco inteligente, porque enfia o pão onde cheira pior. Se isto tem graça? Não. Se alguma vez vimos um francês perder 30 segundos para vir a público esclarecer que usa desodorizante, não usa boina, nem come croissants a todas as refeições? Creio que nunca aconteceu.

As reacções muito agressivas à crónica de Caverivière acabam por reforçar o seu preconceito. Ofensas, exigências de pedido de desculpas ou de demissão, ameaças de morte, são muito pior cartão de visita para um povo do que vestirmo-nos, segundo Philippe, "como concorrentes de reality show, com roupas demasiado justas, óculos dourados e tatuagens a dizer 'Only God Can Judge Me'". O facto de ainda expressarmos toda essa indignação no Facebook prova que o radialista francês acertou quando nos considerou ligeiramente "démodé". Se é para levarmos à letra a história do "quem não se sente não é filho de boa gente", e levar a peito tudo o que é dito sobre alguém que partilhe connosco a nacionalidade, ao menos que o façamos no Twitter, Instagram ou até no Tinder, encetando conversa com um francês apenas para lhe dizer "não vou sair contigo porque és parecido com aquele tipo da RTL que gozou com os portugueses foleiros com os quais eu também gozo".

É uma espécie de código de conduta: o que se passa em Vegas fica em Vegas, o que é risível em Portugal fica em Portugal. É óbvio que a nossa diáspora já não é nada do que era. Sofremos aliás com a famosa fuga de cérebros, e não apenas com gente cujo cérebro parece ter fugido no momento em que resolveu tatuar o símbolo da FPF nas costas, mas o que oferece melhor matéria pra fazer humor? Um "cromo" como o Marco do "Big brother", ou um cromo no sentido de melhor aluno da Nova, que ganhou bolsa de milhares de euros na Sorbonne? Da mesma forma que, para fazer uma sátira sobre um fim de semana em Portugal, falar de lindas praias, delicioso peixe ou a imponente Torre dos Clérigos, é inútil. O que corre bem e merece elogio não serve o humor, que procura sempre a falha. A única personagem bem-sucedida nesta rubrica de Caverivière é Ronaldo, que surge como expoente máximo do tal mau gosto "tuga", visto ser "bilionário e vestir-se daquela maneira". Também aqui o que importa não são os golos, Phillipe não procura o que é digno de aplauso mas de riso. Se rimos ou não, é outra discussão. Posso não ter esboçado sequer um sorriso mas o que importa aqui é se nos importamos ou não com o que ele diz. Relembro que há uns anos, também a respeito de humor produzido em solo francês, todos eramos Charlie.

Piadas com Maomé? Sim, senhora. Piadas com Sua Santidade Cristiano Ronaldo, não senhor. Obviamente não estou a comparar insultos na Internet à reação dos terroristas que invadiram a Redação do Charlie Hebdo mas, lendo algumas coisas, pergunto-me, se um indivíduo chamado Joaquim entrasse com uma sachola nos estúdios da RTL e agredisse Caverivière, não haveria algumas pessoas a dizer que ele se pôs a jeito? Vamos acreditar que não, que tenho excelente impressão dos portugueses, conheço muitos e adoro. Mesmo os que usam gel.

Humorista

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