Opinião

Vacina antipetição

Não sei se já ocupei estas páginas a falar de um dos grandes flagelos do nosso século: a petição online. Provavelmente sim, e estarei a repetir-me. Por esse facto peço desde já desculpa.

Podem fazer uma petição online a exigir o meu despedimento do JN. Até poderei abrir uma honrosa exceção e assinar essa. Porque me parece divertido exigir a minha própria demissão, e porque ao mesmo tempo sei que nunca ninguém, em lado algum do Mundo, tomou uma decisão por causa de uma petição online. Vejam lá se recordam alguma destas notícias:

"Pressionado por petição online, chefe de Estado demite ministro das Finanças";

"Graças a petição online com 3027 assinaturas houve finalmente cessar-fogo na Líbia";

"Incrível! Resulta mesmo! Mulher que queria perder 40kg fez petição online e conseguiu!".

Vem isto a propósito de mais uma petição, talvez das mais bem sucedidas dos últimos tempos (se contarmos como sucesso o número de assinantes), cujo título é: não à vacinação obrigatória contra o coronavírus. Portanto, enquanto está meio mundo preocupado com a capacidade de os cientistas desenvolverem a vacina, outro meio está já a pensar em estratégias para evitar tomá-la.

OK, metade do planeta Terra é exagero, mas a petição já ultrapassou as 500 mil assinaturas, o que não deixa de ser um sintoma tão preocupante como a tosse seca. Se tosse sem expetoração pode indicar covid, assinar um texto que diz "cidadãos inconscientes não devem ser usados como cobaias para os ideólogos da Nova Ordem Mundial, ou Big Pharma, em busca de uma vacina (e lucros)" pode ser sinal de avançado estado de loucura.

Não deixa de ser engraçado que os autores desta petição nos considerem a nós, restantes mortais, cidadãos inconscientes. Eles, os conscientes, estão a zelar pelo resto da comunidade, tentando salvar-nos das garras de quem quer vacinar-nos contra a covid-19. Muito obrigada pela preocupação, amigos!

Acrescentam ainda que não devemos permitir que a pressa das empresas farmacêuticas de produzir a nova vacina se torne um imperativo para a vacinação. Como se o processo fosse o mesmo que se dá quando a nossa avó faz o nosso prato favorito: "Então, querida, fiz meia desfeita de bacalhau para ti, não vai ficar agora aqui a estragar-se. Tira lá mais um bocadinho".

Pior que deixar meia desfeita no prato, só fazer uma desfeita completa aos criadores da nova vacina. Tenho a certeza de que governos de todo o Mundo aceitarão inocular toda a população com um qualquer líquido anticovid só por cerimónia, para não magoarem os sentimentos de quem o fez. É como quando nos oferecem bombons de ginja e, mesmo odiando, comemos um, por delicadeza.

Outro possível motivo para a vacinação generalizada, apontado nesse maravilhoso texto, é o facto de Bill Gates, descrito como "pessoa com muito dinheiro", ter vindo a público dizer que a vida não voltará ao normal até que as pessoas sejam amplamente vacinadas. Também já vi pessoas com bastante menos dinheiro, mas com cursos de medicina e assim, a dizer o mesmo, mas aqui importa não estragar a narrativa dos interesses económicos que comandam o Mundo.

Segundo a petição, as palavras do caixa de óculos dos computadores (forma tão legítima de o descrever como a alusão à sua conta bancária) estão a influenciar decisões políticas como a criação de um programa de vacinação contra o coronavírus. Realmente, aposto que se Bill Gates não tivesse tocado no assunto não passaria pela cabeça de ninguém criar uma vacina e disponibilizá-la ao máximo de gente possível.

A todo o texto subjaz a velha ideia de que "a pressa é inimiga da perfeição", como quem acredita que nos vão vacinar com uma coisa feita em cima do joelho, como aqueles TPC de geografia que fazíamos nos primeiros 30 segundos da aula, enquanto o professor ditava o sumário. A rematar, pode ler-se qualquer coisa como isto: "no entanto, se uma pessoa maior de idade desejar ser vacinada, e vacinar os seus filhos, isso é com ela".

Vá lá... Já que estão numa de pedir, podiam ter aproveitado o balanço para exigir que a vacinação além de não obrigatória, fosse proibida! Felizmente são compreensivos. O que é diferente de terem capacidade de compreensão, já que aparentemente não entendem que esta recusa poderá lixar a famosa imunidade de grupo. E atenção que eu odeio vacinas.

Nunca pensei fazer um texto a defendê-las, e muito menos ansiar pela invenção de novas. Quando era mais nova, o meu maior desejo era que desaparecessem. Aquele medo irracional que alguns têm da cadeira do dentista, eu tenho de injeções.

Às vezes, fingia estar doente, só para não ir levar o reforço da hepatite B. Felizmente os meus pais não caíam nessa. Infelizmente, há gente com filhos a cair nesta, assinando uma inútil petição que quer combater uma das invenções mais úteis de sempre.

*Humorista