Opinião

A árvore anã e a floresta de enganos

A árvore anã e a floresta de enganos

Começa amanhã o segundo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa. Para despedida do primeiro, António Costa convidou o presidente a assistir a um conselho de ministros sobre florestas. No fim, ofereceu-lhe uma árvore anã, vulgo bonsai, dizendo que colocava a floresta portuguesa nas mãos presidenciais. A imagem cola com a ecologia política e social presente, totalmente distinta daquela em que Marcelo iniciou a magistratura há cinco anos.

Quem, todavia, acabou por descrever a "floresta" - de enganos - foi o antecessor de Marcelo, Cavaco Silva. Num evento partidário, Cavaco falou para o país e para o PSD. Recordou-me o seu notabilíssimo discurso, de 2011, no Parlamento, por ocasião da tomada de posse para o segundo mandato. O Governo também era socialista. Estávamos, então, à beira da bancarrota financeira. E coincidem, 2011 e 2021, pelo menos na bancarrota moral e política, sem falar em alguns dos protagonistas comuns a ambos os executivos. Ou, como Ferro Rodrigues na Assembleia da República ou Medina na Câmara de Lisboa, em cargos políticos de diversa natureza. Ao dirigir-se ao país, para além de criticar o combate errático à pandemia, Cavaco apontou "sinais de que a nossa democracia está amordaçada". Nomeadamente, "políticos que legitimamente criticam a acção do Governo e que são por ele acusados de criminosos e antipatriotas".

A "escolha do Governo para a Procuradoria Europeia", que não recaiu "em quem um júri internacional e independente seleccionou", mas "num procurador da confiança da sua área política, tendo mesmo viciado o currículo submetido às autoridades europeias". Ou a "não recondução do presidente do Tribunal de Contas que teve paralelo na decisão do Governo de não reconduzir a Procuradora-Geral da Republica". Cavaco lembrou ainda as "tentativas de controlo ou de desqualificação das entidades independentes da nossa democracia", como o Banco de Portugal, o Conselho de Finanças Públicas, a UTAO ou a CRESAP. Quanto ao PSD, o antigo presidente alertou para o dever de colocar o actual Governo e o PS como únicos adversários políticos, não perdendo energias "em relação a qualquer outro partido". "Sem atrair eleitores que nas últimas eleições votaram PS", concluiu, "o PSD não conseguirá liderar uma mudança de Governo". Em 20 minutos, Cavaco demonstrou que, como Sá Carneiro antes dele, e Passos Coelho recentemente, é a maior figura de autoridade do centro-direita, em Portugal, na transição secular. Oxalá Marcelo, à sua maneira, renove o pedido de "um sobressalto cívico" que "faça despertar os portugueses para uma sociedade mais autónoma perante os poderes públicos".

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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