Opinião

A factura da electricidade

A factura da electricidade

Não tenho a certeza que o país tivesse entendido perfeitamente a telenovela latino-americana que foi a aprovação do Orçamento de Estado.

Como em praticamente tudo, o diabo esteve nos detalhes, uma vez que muita da soberania orçamental passou há muito para a União Europeia. Pelo que a grande farsa para consumo interno desenrolou-se à volta da electricidade. O produto repercute-se na factura dos consumidores finais à taxa normal de IVA de 23%. Salvo o Governo e o PS, todos os outros partidos parlamentares apresentaram propostas para baixar essa taxa em diversas modalidades. Nada, em teoria, impedia que pelo menos uma fosse aprovada. Entre ameaças patéticas, a roçar o histerismo político de alguns secretários de Estado que deviam exibir mais juízo, e incompreensíveis trocas e baldrocas entre as propostas cruzadas dos outros partidos, António Costa ligou a tomada. Com uma ficha tripla, estendeu o fio do PC ao CDS, passando pela futura socialista Katar Moreira, agora preocupada com a "estabilidade". Aplicou uma fita isoladora ao PSD que, representado no espectáculo grotesco pelo improvável deputado Duarte Pacheco, baralhou de tal forma palavras e actos, acabando por tropeçar nos fios tecidos por Costa e pelos seus aliados circunstanciais. Como, em política, famosamente o que parece é, nenhum partido estava verdadeiramente empenhado nas suas propostas nesta matéria, já que, afinal, ficou tudo na mesma: taxa na factura da electricidade a 23%, que também continua a acolher a "contribuição para o audiovisual", a taxa da RTP. Qual é a moral desta breve história amoral? É a do costume desde há quatro anos. Costa vai mercadejar com quem quer que tenha para a troca para se manter. E recorrerá a quaisquer meios com os restantes contratantes para esse efeito, desde que não lhe saiam muito caros como estes não saíram. O que porventura diz menos sobre ele, que sempre foi assim, do que sobre os que aceitam estas jogatanas de matemática oportunista. A degradação da imagem da vida parlamentar não é uma invenção da opinião pública. É uma criação diária do próprio regime, nas extraordinárias pessoas dos senhores deputados e dos senhores governantes mantidos pelos primeiros. Se juntarmos a isto, noutro plano político-institucional, a tentativa canhestra, e em curso, de retorcer a autonomia dos procuradores da República, então estamos outra vez a andar para trás. Depois não se queixem.

*JURISTA

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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