Opinião

A "geração incómoda" de Jorge Sampaio

A "geração incómoda" de Jorge Sampaio

Salazar intuiu, certeiramente, entre 1962 e 1968, que aquela gente universitária, das associações e da contestação estudantil, em poucos anos estaria no lugar que ele simbolizava. Havia ali uma coragem, também física e moral, que ele desconhecia.

Pertenciam a uma "geração incómoda", como um dos seus "profetas desarmados", José Medeiros Ferreira, a classificaria. Incompatibilizados geneticamente com a ditadura, nem o PC nem a oposição "burguesa" - que se organizava lentamente em torno de figuras como Mário Soares - lhes serviam. Sem saberem, já eram, em certo sentido, os iconoclastas que ficaram. Resistiram à sedução inicial do PS, fundado em 1973, mas nem todos à "revolução socialista" prometida por algum MFA. Os dois rostos mais conspícuos da "reunião interassociações", a RIA, de 1962, Jorge Sampaio, o secretário-geral, e Medeiros Ferreira, o orador inflamado, desencontraram-se no PREC. Sampaio foi secretário de Estado da Cooperação Externa de Vasco Gonçalves, em Março de 1975. Medeiros só apareceu secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros no VI Governo Provisório, de Pinheiro de Azevedo. O ministro era Melo Antunes, que nem sequer assistiu à posse do seu secretário de Estado. O Medeiros não era um dos "dele". Como Sampaio, depois presidente da República, que colocou M. Antunes no Conselho de Estado por escolha pessoal. Nenhum secretário-geral do PS em altas funções de Estado, aliás, levaria Medeiros Ferreira para o Conselho de Estado. Embora um, Sócrates, lho tivesse prometido em vão. Enquanto Medeiros foi o primeiro MNE do sistema constitucional de 1976 - e, com Soares, o responsável político pelos pedidos de adesão ao Conselho da Europa e à hoje EU -, Sampaio andava pelo MES e pela "Iniciativa Socialista". Medeiros aderiu ao PS em plena Constituinte, para a qual fora eleito em Abril de 1975 na qualidade de independente nas listas socialistas. Sampaio chegou lá em 1978, em pleno II Governo Constitucional, PS-CDS. O dr. Soares, famosamente, não dava ponto sem nó. Sem nunca ter passado pelo PC, Jorge Sampaio tornar-se-ia o mais eficaz interlocutor do PS junto dos comunistas, até aparecer António Costa. Em 1986, na primeira candidatura de Soares a Belém. Em 1989, na Câmara de Lisboa. E, em 1996, para derrotar Cavaco na sucessão belenense de Soares. Parece que costumava dizer duas coisas em Belém. Quanto à "geração incómoda", que fundou, todos seriam "intelectualmente" melhores que ele, todavia era ele é que ali esteve dez anos passando pelos pingos da chuva. E, quanto a Cavaco, não houve mais ninguém que o tivesse conseguido derrotar. É um grande epitáfio.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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