Opinião

A herdade

Não faltariam "temas" para esta primeira crónica de Agosto. A farsa institucional e política em que vivemos nunca fenece em assuntos. Ainda outro dia, em Loulé, encontraram-se duas notabilidades para a "habitual reunião das quintas-feiras".

Um, vindo da Quinta do Lago, chegou primeiro que o outro, de Lagoa, e pôs-se a tecer considerações para as câmaras de televisão sobre o melhor lugar. Se de costas para a janela, ou não, porque a haver um atentado pela janela, o primeiro a levar era o que ficasse de costas. Deixou esse lugar afectuosamente para o outro. Está gravado.

O outro, acabada a conversa, falou para as mesmas câmaras e disse que não há ninguém melindrado (foi o termo usado) com o nepotismo negocista e familiar no Governo. Porventura nem o interlocutor do "lugar do morto". Sem melindre de espécie alguma - a pessoa em causa não possui estados de alma -, acrescentou aguardar um parecer de uns senhores e senhoras que reunirão quando lhes aprouver (agora estão de férias), preferencialmente depois das eleições, e quando o parecer não servir, como já não serve, para nada. Todavia, não era por aqui que pretendia começar Agosto.

Para elevar a conversa, dou nota de um filme português a estrear brevemente. Trata-se de "A herdade", de Tiago Guedes, a partir de um guião de Rui Cardoso Martins e do próprio Guedes. O produtor, o meu amigo Paulo Branco, proporcionou-me, em boa hora, uma pré-visualização. Não exagero afirmando "A herdade" como um grande momento da cinematografia contemporânea e nossa, exactamente por esta ordem. Integra a Selecção Oficial em Competição, no Festival de Veneza de 2019, e a mais relevante do Toronto International Film Festival, a Special Presentations. Senti esta película como que um "pós-Delfim", o livro de Cardoso Pires e o filme homónimo de Fernando Lopes.

Do original de C. Pires, disse Eduardo Prado Coelho falar-se lá da vida e da proximidade da morte, duas coisas intensas no filme sobre que escrevo, e na personagem principal, magistral, composta por Albano Jerónimo. O guião colhe inteligentemente da dramaturgia e da prosa nacionais porque, e não cito Agustina ao acaso, "o que na nossa raça perdura é a contradição.

É um amor impossível com o que foi e o que não quer que se repita". "Recriar nas brumas, iludindo a agressão, esperando sem desejar", "alma sem cruz" que "renasce já em cinzas, mas renasce sempre". O que me fica de "A herdade", na sua magnífica fotografia, é, sobretudo, aquela linha crepuscular do horizonte a anunciar o fim jubilatório de tudo.

*Jurista e Membro do Partido Aliança

O autor escreve segundo a antiga ortografia