portugal em transe

A intoxicação voluntária

A intoxicação voluntária

Começo por louvar-me em Jorge de Sena. Dizia ele, em 1962, no suplemento literário de "O Estado de São Paulo", que, para falar de literatura de consumo, e ao contrário do que sucede com a autêntica, não é necessário lê-la. Se substituir "literatura" por "televisão", chego onde quero chegar. Fora três ou quatro intervenções semanais escolhidas a dedo, não vejo programas de comentário ou de "debate" político.

Mas sei perfeitamente o que se passa através da leitura de terceiros. Embora muito disso seja quase exclusivamente para o "meio" - político, partidário, comunicacional ou meramente familiar, estilo "dinastia Rosas e Jonet" -, a verdade é que há muita gente que segue essas coisas como a uma religião ou a uma aula do antigo "ano propedêutico" dos adolescentes dos anos 70. Com o confinamento, agravou-se. Já não lhes basta o ranço sarcófago "correcto" de produtos como "A circulatura do quadrado" ou "O eixo do mal" (os do primeiro que me perdoem juntá-los, por mera economia de bafio, aos segundos). Agora têm, nos canais informativos de cabo, uma panóplia de oferta de "tudólogos ao dia", algo que a pandemia piorou, porque sim. Isto é, não existe a menor razão, prática, cínica ou outra, para se tratar daquelas pessoas e não de outras quaisquer. Ou então existe e é mais grave. Há dias, um comentador que é, simultaneamente, presidente da maior Câmara do país entrou em directo, para comentar, do seu gabinete municipal. Os outros nem piaram. Criaturas tão improváveis quanto estimáveis, e, algumas nem isso, aparecem alternadamente a evacuar sentenças vazias, designadamente "à Direita", quando não passam de papagaios de papel da Esquerda que os consente, difunde e promove. São tão de Direita como eu o pirilampo mágico. Há excepções? Haverá, com certeza. Um programa onde apareça, por exemplo, um Sérgio Sousa Pinto e um Sebastião Bugalho escapará certamente à malfadada língua de pau generalizada e "esquerdizada". Há alternativas? Claro. Mudar de canais, ver filmes ou música de acordo com o gosto de cada um. E ler, evidentemente. A. Finkielkraut, logo à cabeça: "o homem com o telecomando não está condenado a ser livre, está condenado a si próprio, pela sua fatal liberdade", "à intimidação do mero palavreado". P. Sloterdijk vai mais longe. "Os fazedores de rádio e televisão levaram a cabo um golpe de Estado mediático" onde "os animadores de televisão tomaram o poder da noite para o dia". A televisão "política" pede ao grosso dos seus colaboradores que deixe "por favor à entrada os sapatos, os escrúpulos e a necessidade de compreender". E eles deixam.

Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG