Opinião

A Natureza do PS

A fazer fé no próprio, António Costa gaba-se de ser do PS desde os 14 anos. Ou seja, talvez tivesse estado na Alameda, em Lisboa, pela mão de alguém em Julho de 1975. Aí, Soares tratou a tropa radical e o PC como "paranóicos" e "energúmenos", a mesmíssima dupla que redigiu a lei da requisição civil de que Costa se serviu recentemente.

O tempo passou. Mário Mesquita, depois da derrota do PS para Eanes e Cavaco, escreveu a 7 de Outubro de 1985 no DN: "Deus não dorme. A manipulação propagandística e o primado do show-business não bastaram para apagar da memória dos eleitores a experiência governamental mais próxima". Constâncio e Sampaio sucederam, sem história, a Soares. Só Guterres os levaria de volta ao poder e, mesmo assim, sob o olhar desconfiado da ala jacobina e soarista que se acolitara em Belém e, em Lisboa, na Câmara esquerdófila de Sampaio. Sócrates ganhou o partido e o país apesar dessa ala onde António Costa aboborou anos a fio. Aliou-se tacticamente a Sócrates a quem exigiu o segundo lugar no Governo para deixar Bruxelas. E deixou-o, pretextando a mesma Câmara onde negociou, por Sampaio, com o radicalismo da altura a maioria de Esquerda lisboeta. Os restantes 12 anos são conhecidos. Especialmente os derradeiros quatro e, nestes, a última semana. Costa agiu na fronteira da não democracia e do desrespeito pelas liberdades públicas quando mobilizou o aparelho do Estado para um exercício autoritário do poder público contra o direito constitucional à greve. Sabe que o pode fazer porque há quatro anos meteu o PC, o radicalismo bloquista e os bobos do sindicalismo oficioso da CGTP e da UGT no bolso. Fá-lo com a cumplicidade de uma Comunicação Social deliberadamente acrítica e serventuária. Apoia-se no recuo pontual de funções "autónomas" de soberania como as da PGR. De Marcelo, não vale a pena falar. Só de coisas sérias. A abdicação cobarde diante do poder fáctico de Costa, significa que o evento "greve de motoristas de matérias pesadas" transcendeu as barreiras "tradicionais" entre esquerdas e direitas. Separou, e ainda bem, os inimigos das liberdades públicas, os ditos "profissionais" e "donos" da democracia, dos que à Esquerda ou à Direita defendem uma democracia liberal limpa. O lastro autoritário e iliberal do PS só se interrompeu com algum Guterres e com o pobre Seguro. De resto, esteve sempre lá. Desde a adolescência política de António Costa, que o bebeu por inteiro, contando com "o repouso egoísta" dos portugueses e a valia de meia dúzia de lacaios.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia.)

* JURISTA