Opinião

A nova "identidade nacional"

A nova "identidade nacional"

Com o país concentrado na pandemia, nas "medidas" e, sobretudo, nas férias, saber quantos somos, e estamos, e onde é que estamos ou deixamos de estar, é com certeza coisa de pouca monta para o português médio.

Todavia, a compreensão da chamada "identidade nacional" passa por dados como os do Censos 2021 divulgados a semana passada. O que, em abundância, foi explicado oportunamente por criaturas tão distintas quanto Orlando Ribeiro, Jorge Dias, Vitorino Magalhães Godinho, Vasco Pulido Valente, José Mattoso e, ainda agora, Maria Filomena Mónica, num livro intitulado "O meu país". E o que é que de essencial nos revelou o Censos 2021? Resumidamente, a perda de 2% da população residente, o equivalente a 214 mil almas. Já não chegamos a 11 milhões, nem sequer a 10 milhões e quinhentos mil.

Acentuou-se a macrocefalia litoral, com o habitual destaque para Lisboa (Área Metropolitana) e Algarve que engrossaram os "efectivos". Norte e Centro fazem o grosso da despesa da perda de residentes em números absolutos. O resto é por conta do Alentejo depauperado que, ainda assim, se esvaiu em cerca de 7% da sua população face a 2011. A quase totalidade dos municípios, 257 em 308, também.

Por outro lado, as "famílias numerosas" desvaneceram. A média de pessoas por família que o Censos 2021 fixou é de 2,5 pessoas por agregado. O que, simultaneamente, dá em causa e consequência da quebra da natalidade indígena. As "migrações" e as generosidades administrativas do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras socialista, agora "de Asilo", e sem "fronteiras", não chegam para inverter a tendência geral. Mesmo assim, como relatava ontem o "Diário de Notícias", o número de estrangeiros em Lisboa (2020) era de cerca de 107 mil. E, destes, apenas cerca de três mil estariam recenseados. Há alguns dispersos pelo interior, mas não chegam propriamente a uma população.

Qual é a moral desta breve história? Portugal, com o Norte a fazer de proa - e isto não é novidade histórica -, ressuma a um barco meio naufragado, tombado a bombordo. Mais do que a "divisão" Norte-Sul, a outra, a Litoral-Interior, leva a melhor. Os sucessivos oligarcas, nacionais e locais, assim o determinaram, estragando a obsessão inócua de António Sérgio pela "colonização interna".

O "plano" dos milhões "resilientes e recuperadores" que aí vem, só por um milagre estilo das rosas de Santa Isabel poderá contribuir para a inversão de uma tendência inexorável. É melhor habituarmo-nos à nova "identidade nacional".

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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*Jurista

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