Opinião

A palha e o grão

No sábado de manhã, em Lisboa, o presidente da República deu posse a um batalhão de socialistas, conhecido por Governo, que rapidamente aprovou um programa, a alterar e a empurrar com a barriga à medida das circunstâncias.

Nem Costa, nem nenhum dos seus próximos são propriamente gente preocupada com o futuro.

Num PS estabelecido como "dono" do Estado, a única coisa que acode imediatamente a estas setenta almas, mais às dezenas de acólitos dos respectivos gabinetes, é a pura manutenção do poder. "O Estado somos nós", terão eles pensado uns para os outros, enquanto demagogicamente seguiam em dois autocarros da Carris para a primeira reunião. A especialidade deles é o artifício. E, verdade seja dita, o "povo" não se importa que assim seja porque, de uma maneira geral, também aprecia fazer de conta. Como se costuma dizer, o país está em boas mãos. Estão bem uns para os outros. Lá mais para diante, quando chegarem sinais de fora à periferia portugalória, veremos como estas alegres comadres no poder, e no estado a que tudo chegar, reagem. E o ainda mais alegre "povo", distraído do pormenor democrático.

Deixem-nos, pois, trabalhar. Até porque, à Direita deles, Rui Rio inventou um "centro" que ninguém lhe explicou estar já ocupado por esta tropa pedestre de Costa. A menos que Rio conte dar uma mãozinha, se e quando as esquerdas amigas falharem ao Governo minoritário. Todavia, não é essa tarefa que espera ao que resta da metade não esquerda do Parlamento, da qual não deve ser excluído o deputado André Ventura e o seu eleitorado.

Fora e dentro do Parlamento, a prioridade será, como explicou Miguel Morgado numa entrevista ao semanário "Sol", expurgar esse espaço não socialista nem radical do politicamente correcto imposto pelo PS e aliados à sociedade portuguesa, sem concessões ou transigências que mais não são do que manifestações de dependência cultural, política e cívica do PS. Os que concederam e transigiram foram punidos a 6 de Outubro, mesmo que alguns ainda não tenham dado conta disso.

A Direita não pode estar condenada a fazer de tapa-buracos ou de cúmplice afectuosa de um poder socialista instalado há mais de quarenta anos, logo no I Governo Constitucional, com a intermitência sustentável e duradoura de Cavaco.

A Direita portuguesa jamais será eficaz negando-se a si mesma. É preciso não recusar quem representa, saber por que causas se deve bater e não perder o fôlego em tolices e nomes. Esperam-na demasiadas tarefas para perder tempo.

*JURISTA
O autor escreve segundo a antiga ortografia