Opinião

A pandemia avança com toda a confiança

A pandemia avança com toda a confiança

Há cinco anos, mais ou menos por esta altura, corria a novela mexicana da formação do primeiro Governo de António Costa.

Passos tinha formado o seu, decorrente da vitória nas eleições. Mas Costa, "manifestamente", já tinha programado outra coisa pelo menos com um dos seus futuros parceiros. E essa coisa durou quatro anos.

Um pouco mais cedo, Marcelo, aproveitando o impasse pós-eleitoral, apresentou a sua candidatura presidencial em Celorico de Basto. Tratava-se do candidato a chefe de Estado mais bem preparado no "terreno" depois de Cavaco. Carregava o bom peso de décadas de exposição pública, primeiro (e no fim) na Comunicação Social, no mesmo partido de sempre do qual foi um brilhante presidente em circunstâncias especiais - o do pós-cavaquismo - e onde, por sua iniciativa, venceu dois referendos populares, algo de que o actual Parlamento tem medo. E, sobretudo, ia herdar um Governo que não empossara e que ainda era indefinido. Reinou a beatitude nacional.

Criou-se rapidamente o mito da "descrispação" patriótica, que é algo que ainda hoje não sei o que foi. Decorreram quase cinco anos de felicidades, o último com o PS legitimado minoritariamente no Governo, tudo muito à sombra da recuperação económica e financeira que a Coligação PSD/CDS tinha deixado, e que a Esquerda cavalgou como se fosse dela.

Sócrates desapareceu, rasurado, da história do PS. E a bancarrota de 2011 também, a que assistiram impávidos e serenos alguns dos próceres de Costa, comuns a ambos Sócrates e Costa (este entretanto porfiava na "Quadratura do círculo" da televisão, onde jurava pelo somatório de "vitórias sobre vitórias" dos governos Sócrates), com a complacência do Bloco e do PC.

Eis que a pandemia, de mãos dadas com uma impreparação e uma demagogia desbragadas, veio estragar tudo. Com a sua inteligência aguda, Marcelo intuiu rapidamente que a época dos "três efes" - facilidades, festas e festanças - acabou.

Todavia, é o que há e o que é. Suponho que nunca imaginou estar à frente da chefia do Estado num momento em que a política se rarefaz no seu ponto mais baixo. E com os protagonistas mais baixos quando mais se precisava dela fortalecida.

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A farsa criada e alimentada em torno de um Orçamento que inexistirá, na forma em que for aprovado, em Janeiro de 2021, é pornográfica. A repetição do anúncio de Celorico tarda, e não será por acaso. Quem sabe se as presidenciais não terão de ser adiadas em devidos termos. A realidade presente, dramática, é a da pandemia. Só ela avança com toda a confiança.

* Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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