Opinião

A ver passar os comboios

A ver passar os comboios

Algumas notas para a Direita, escritas num comboio da CP digno de um western do Leone, não por causa das eleições - que não me interessam - mas porque sim.

Aliás, estas eleições serão provavelmente as últimas em que será possível abordar a coisa nos mesmos termos de há 40 anos: bandeiras, peixeiras, passeatas, comícios, demagogia reles, mambo-jambo, etc. Velhas fotocópias? O "povo" prefere originais, mesmo maus, desde que não interfiram no quentinho das vidas privadas.

1 - Se a Direita se prepara, como parece, para depois de 6 de Outubro se movimentar como até aqui, tipo reprodução de circuitos da carne assada tantas vezes quantos os candidatos a chefes de circunstância, então mais vale estar quieta. Provavelmente algumas coisas manterão a sua designação (siglas), mas já serão outras mesmo que os protagonistas não entendam isso. E coisas actuais deverão, ou poderão, dar lugar a outras. Foi assim em todo o lado, por que é que esta periferia há-se ser diferente?

2 - Isto conduz a que a mera ideia de coligação entre o que há e o que pode haver já não chega. A "coligação" que não houve para estas eleições é pré-história e não vale a pena perder um minuto nisso.

3 - O bom combate tem de ser cultural e político, por esta ordem, e, sobretudo, não recear ser minoritário numa primeira fase, até porque os média estão tomados pela "redacção única" anti-Direita, ironicamente dirigida por comentadores oriundos da Direita, com destaque para Marques Mendes e Pacheco Pereira. Por outro lado, e uma vez desaparecida, por enquanto, qualquer figura de autoridade à Direita, não se pode cair na falácia de substituir pessoas por outras pessoas exactamente com os mesmos vícios político-partidários das que as antecederam só porque têm mais "tropas". Serão sempre as "tropas fandangas" de uns chefes frouxos.

4 - Com a Direita incumbente, onde a maior parte dela tem pena de não ser de Esquerda, é irrelevante a Esquerda ocupar dois terços do Parlamento. Ficariam três terços.

5 - A "ideia" de que existe uma Direita "radical" e uma Direita "boazinha" é uma mistificação da Esquerda para manter a Esquerda no poder, e um dos argumentos mais favoráveis à maioria absoluta de Costa. Há demasiados estados de alma vaidosos à Direita. À Esquerda, nenhuns. Costa representa o triunfo do inesperado porque nunca trabalha sobre "cenários". Há um problema? Seguro, remove-se. Não se ganha eleições? Faz-se uma "query" política com a tralha disponível. Por que é que a Direita, um dia, não poderá triunfar assim?

*Jurista

​​​​​​​ O autor escreve segundo a antiga ortografia