Portugal em transe

Adiante que se faz tarde

Adiante que se faz tarde

O jornalista Miguel Sousa Tavares despediu-se da carreira de quarenta e tal anos de entrevistador com Marcelo Rebelo de Sousa. Em directo de Belém, faz hoje oito dias, Sousa Tavares questionou o presidente e saiu-lhe o velho comentador.

Ora Marcelo, também ele parcialmente um vigoroso produto televisivo, possui uma característica curiosa, ou talvez não. Não é particularmente dado a ouvir o interlocutor. Dispara, num estilo torrencial não sofisticado em demasia - aquela coisa da "proximidade" e dos "afectos" vem muito daí, o "homem médio" nem chega a reparar nisso, entre abraços e fotografias -, independentemente do que se lhe pergunta. Ou de quem pergunta. Tavares quis saber dos "equívocos" em torno das chefias militares.

Marcelo leccionou-o e, no fim da resposta, ficámos na mesma. O presidente não quis objectivamente reconhecer que pelo menos o chefe da Armada não ficará. Não era agora porque dava muito nas vistas - e anulava em hasta pública o vasto crédito moral do homem das vacinas, Gouveia e Melo -, mas não perde pela demora. Como entretanto ficou o do Exército, renovação apresentada infantilmente como um "agrado" (tipo doce sidónio de Viana do Castelo) do Governo ao presidente, para já não se fala mais nisso. Nem o Tavares.

O jornalista também quis saber o que é que o incumbente julga que ficará do mandato dele. Isto depois de ter dado a entender que, até mais ver, não tem ficado grande coisa. Marcelo não pensou muito e atirou-lhe com duas maravilhas mundiais portuguesas. A saber, o secretário-geral da ONU, o bonzinho Guterres, e o comissário, alto, da mesma ONU para os refugiados e migrantes, o senhor dr. António Vitorino, a ex-Constança do PS e, sobretudo, o ex da vida dele de advogado, agora exclusivamente votado à beatitude universal.

Tavares entretanto foi à vida dele, e nós à nossa. Marcelo ainda apareceria na semana passada para defender o papel do sr. Cabrita, do MAI e das altas velocidades por explicar, por causa dos incêndios. Nem o Governo ou o PS se lembravam já do sr. Cabrita, que preferem manter fechado a sete chaves, e Marcelo trouxe-o de novo para a ribalta. Só se for para fazer uma coisa em que era muito bom nos jornais. Puxá-lo para melhor lhe cortar a cabeça. Por algum lado o presidente reeleito há 10 meses terá de começar. Aquela obsessão com orçamentos e "estabilidades" artificiosas (atenção, não são artificiais), às esquerdas e às direitas, aborrece. Adiante que se faz tarde.

Jurista

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