O Jogo ao Vivo

Opinião

Autópsia do mundo

O regime prepara-se para fazer coincidir a "libertação" das principais medidas não farmacológicas contra a pandemia com o calendário eleitoral.

Criou barulhos absurdos por causa das máscaras que nunca foram obrigatórias, salvo em determinadas circunstâncias. Avança entretanto a retórica da "responsabilização" da qual, aliás, nunca se devia ter saído. O atordoamento provocado pelo inesperado, associado à pandemia, não deixou praticamente nenhuma margem de manobra para a "pensar" - e à sociedade. Porque é que se chegou aqui, como é que se chegou aqui ou o que fazer para prevenir que se regresse a isto, ou a pior do que isto, são algumas das perguntas a que o mais recente livro de Manuel Maria Carrilho procura responder ("Sem retorno", Grácio Editor, 2021). Em pouco mais de cem páginas, Carrilho "resume" o "mundo que nós perdemos" em menos de dois anos, para usar um título de um historiador inglês. O que não quer dizer que tivéssemos perdido as ilusões em relação a esse mundo pela recorrência ansiosa à expressão anedótica do "regresso ao normal", com a variante imbecil do "vai ficar tudo bem". Uma das principais "teses" de Carrilho é que, precisamente, não haverá regresso algum a normalidade alguma. Pelo contrário, a "normalidade" que a covid-19 surpreendeu é causa principal da pandemia. Coisas como "a globalização selvagem das últimas décadas", "a devastação, sobretudo asiática, de habitats naturais" onde os vírus repousam milenariamente, o frenesim descontrolado da mobilidade, os "factores de destruição", humanos e não humanos", do planeta, a obsessão do foro quase psicótico com a saúde, e que se prende com a obsessão colectiva e individual pelo ilimitado e pelo infinito - nem sequer o céu já é o limite, como se viu há dias naquela histeria de dez minutinhos no espaço de dois milionários grotescos -, o oportunismo político das elites associado a uma perigosa infantilização-desresponsabilização social, a rejeição da finitude pessoal e de meios, o engodo do "crescimento", etc., tudo integrava o "padrão" da "normalidade". A pandemia apenas veio acentuar, no fundo, todos os sinais que vinham de trás no sentido de estarmos já a viver, um pouco por todo o lado e em tudo, numa "ecologia" político-cultural pós-democrática envolta numa "pandemia comunicacional" totalitária. A civilização ultrapassou os "limiares da irreversibilidade" e, com eles, deixou de controlar-se a si mesma e ao planeta? O realismo do livro responde positivamente. Eu sou um pessimista sem retorno e que não serve de exemplo. Mas Carrilho está bem mais informado do que eu.

*Jurista

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG