Opinião

Bloco rachado

As eleições autárquicas já foram analisadas de trás para diante. E vice-versa. Houve tempo e espaço para o efeito nas televisões e nos jornais. Precisamente por isso, estranho, ou talvez não, a rasura praticamente absoluta quanto aos resultados do Bloco de Esquerda.

É que o Bloco, por via dos arranjos de 2015 que reconduziram o PS ao Governo numa situação peculiar, tornou-se indispensável à sobrevivência da nova maioria parlamentar. E constituiu-se numa espécie de "Grande Irmão Moral", simultaneamente "vanguarda" e polícia de costumes, do desempenho dessa maioria. Sobretudo dos dois governos minoritários socialistas. Não por acaso, o PCP exigiu relações bilaterais com o PS e o Governo. Se repararem, nunca ocorreram encontros no âmbito da "geringonça" - prefiro o termo frente de Esquerda - a três, quatro ou cinco (se somarmos o PAN e o satélite PEV ao PS, ao Bloco e ao PCP). Se a expressão "palavra dada é palavra honrada" saiu tantas vezes da boca do primeiro-ministro, é sobretudo ao PCP que a maioria informal o deve. O Bloco fez-se "dono" dos pressupostos político-culturais do funcionamento daquela maioria. Ao PC, sempre lhe interessaram mais outros "pontos". Nomeadamente o seu papel autárquico, capturado em câmara lenta, nos domínios "históricos" do partido, pelos socialistas. O Bloco é muito palavroso, mas invariavelmente naquele sentido de "muita parra e pouca uva". Desde o PSR trotskista que a Comunicação Social começou a achar piada ao dr. Louçã e aos seus pupilos e pupilas. Daí viverem e sobreviverem, também, por causa do fascínio que exercem nas redacções. E as redacções, de uma forma geral, aceitaram uma vez mais esta perversa "superioridade moral" do Bloco ao optar por não destacarem uma das grandes evidências das autárquicas de 2021: a pesada derrota do Bloco de Esquerda. Uma derrota da insuportável arrogância do Bloco sobre tudo e todos, a começar pelos dois parceiros parlamentares e pelo próprio Governo. Uma derrota da cretinice "moralista", radical e pequeno-burguesa, que, nas palavras do deputado Sérgio Sousa Pinto, contribuiu "para o desligamento geral da realidade" que os puniu a todos, em particular em Lisboa. Urbano-deprimentes, politicamente falando, os bloquistas desprezaram sempre o país como um todo. A nação, se quisermos, que é mais do que um Estado "máximo", um estúdio de televisão ou um clube de cínicos totalitários. De doze vereadores que tinham, espalhados por aí, quedaram-se em quatro. Um partido com apenas dois anos, o "Chega", alcançou dezanove. Deus, famosamente, não dorme.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Jurista

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