Opinião

Bom proveito

De acordo com algumas luminárias, o carteio electrónico (e porventura algum manual de que ainda não tivemos notícia) trocado entre o Ministério das Finanças e o penúltimo presidente da Caixa deve ir parar ao lixo da pequena história. Pouco lhes importa o que esse carteio revela em matéria de comportamento político de, pelo menos, dois dos seus elementos e do primeiro-ministro. Pouco lhes importa que, apesar da "urgência", a famosa recapitalização da Caixa ande em banho-maria por causa do sacrossanto défice. Da circunspecta Ferreira Leite ao bispo laico Louçã, passando pelo PC (o Bloco, salvo na parte episcopal, contenta-se com a sucessiva e vã presença do ministro numa comissão de inquérito), a coisa não passa de uma "trica" que não interessa nada. Um "folhetim" inventado pela Direita que, imagine-se, não reconhece ao dr. Centeno a qualidade de extraordinário "referencial de confiança" que o dr. Costa inventou para maior glória de Portugal. Pelo contrário, o dr. Marcelo, no intervalo do "aconselhamento" prestado a Cristina Ferreira por causa dos negócios da apresentadora (vide o último número da revista "VIP"), parece reconhecer. Não é a primeira vez, nem será com certeza a última, que o Governo (e, em particular, a equipa das Finanças) se depara com esta questão da ambiguidade no tratamento da verdade. Não é inédito, de facto, nem é exclusivo deste Governo. O que é inédito e exclusivo deste Governo é a circunstância de o PC, com um activo impressionante de pedidos de cabeças de ministros servidas na bandeja da demissão, colocar-se ao lado do Governo, e do ministro, com a desculpa da "recapitalização" do banco. O candidato comunista à Câmara de Lisboa chegou a "desafiar" um jornalista a apresentar prova desses pedidos. Fora os quatro governos de Vasco Gonçalves, não houve um, salvo o actual, em que o PC não tivesse sugerido a rua a este ou àquele ministro com inusitada insistência. É só procurar. Dir-se-á que o episódio só serve para "entreter" quando muito duas pessoas, para citar a dra. F. Leite. Mas haverá alguém mais apostado no "entretenimento" e na distracção do essencial do que o Governo e os seus aliados? No fundo, e parafraseando T. S. Eliot, que falava da poesia, a amoralidade política da maioria, de que esta historieta desconchavada faz parte, é como o bife que o ladrão atira ao cão para poder roubar a casa. Quem diz ao cão, diz aos novos idiotas úteis. Bom proveito.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

* JURISTA

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