Opinião

Cavaco, um intruso no país das maravilhas

Cavaco, um intruso no país das maravilhas

Cavaco Silva reapareceu para apresentar o primeiro volume das suas memórias presidenciais. Escolheu uma arrumação temática mas concentrou a maior parte do trabalho na descrição e na avaliação do relacionamento político e institucional com os dois governos chefiados por Sócrates. Deixarei o livro para umas crónicas mais adiante. Sucede que Cavaco reapareceu num momento de tensão política largamente "inspirado" por procedimentos que, salvas as devidas diferenças, fazem lembrar outros ocorridos no principal período a que este primeiro volume respeita: de 2006 a meados de 2011. Falo da dissimulação, da farsa, da ambiguidade, da hipocrisia, do recurso à tortura semântica para esconder o óbvio ("erros de percepção mútua", é assim que agora se define a treta?), em suma, de atitudes políticas assentes em "modelos" de comportamento conhecidos. Repare-se como, por causa destas atitudes, ninguém deu a menor importância a números e resultados apresentados simultaneamente com as acrobacias lamentáveis de linguagem. A maioria parlamentar totalitária tenta, evidentemente, tapar o sol com a peneira: "nós mandamos e interpretamos a verdade, a lei e a Constituição como entendemos e para quem não entenda, porta da rua é serventia da casa". Mais. "Decretamos o fim do debate democrático e o esclarecimento público quando quisermos. Se for preciso, até combinamos tudo ao pormenor com o presidente da República para que nem ele nem nós fiquemos mal na fotografia". Ora a "história" que Cavaco Silva conta não é muito distinta desta salvo em dois aspectos relevantes para o curso das coisas e o futuro do país. Em primeiro lugar, Cavaco Silva nunca sentiu necessidade de bajular as esquerdas para ganhar duas eleições presidenciais, para ter boas sondagens ou para ser "popular" à força. Em segundo lugar, o PS de então não dava troco ao radicalismo esquerdista que hoje em dia condiciona a governação do país e o desempenho de outros órgãos de soberania. De resto, a tentação de tudo controlar - e de abafar tudo o que possa perturbar a "descrispada" e alegre paz dos cemitérios reinante - é uma "experiência" já amplamente vivida. Só mudaram entretanto, e muito pouco, os principais condutores da "tenebrosa máquina" que se movimenta corrigida e aumentada. Herculano, em 1851, alertava para a necessidade de os políticos evitarem recorrer à lisonja ou "armarem à popularidade". "É preciso desiludir o povo", escreveu. Não se enganava. Cavaco também não.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

JURISTA

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