Opinião

Cisnes negros

Por força das circunstâncias epidemiológicas extraordinárias em curso e das folclóricas habituais, imagino que o país não tivesse prestado demasiada atenção a alguns altos jogos florais da paróquia política.

A pretexto do aniversário de um jornal, Marcelo e Costa produziram duas peças políticas para memória futura. O mais relevante que saiu da boca do presidente prende-se com a sensação de precariedade política em vigor, teoricamente imprópria para um governo e uma legislatura ainda jovens. Para Marcelo, os tempos sabem mais a fim de legislatura e de festa do que a princípio de governação ou de iniciativa. Mais. O presidente sente que o sistema político-social "perdeu o pé" e precisa fazer um esforço sério "para mudar de vida", deixando para isso de esconder-se "atrás da ilusão de que as leis vão resolver aquilo que os comportamentos não resolvem". E não quer ouvir falar em eleições antecipadas. O Parlamento, na presente composição, que se amanhe. O Governo também. A isto, Costa respondeu em entrevista ao mesmo jornal. Que está "um bocado cansado de ouvir a lengalenga de que foi o PS que não quis a geringonça". Que Marcelo "não quis deixar o Governo de fora de uma mensagem que não era para ele, mas para os partidos da oposição" e para o PC e o Bloco. Ou seja, Marcelo só quis "compor" a mensagem "para que não se achasse que estava a desobrigar o Governo". Não é a primeira vez, nem será a última, que Costa desvaloriza politicamente o papel presidencial apesar do "afecto" público mútuo. Marcelo pôs-se a jeito quando optou por uma presença pública exaustiva, e prolixa, que não deixa espaço para distinguir o essencial do vulgar. O "sistema" está desequilibrado. E é através das brechas desse desequilíbrio, favorável ao primeiro-ministro e ao Parlamento, que Costa floresce politicamente. Em circunstâncias "normais", por exemplo, não seria admissível o esvaziamento, anunciado a meses de distância, de uma eventual tomada do Banco de Portugal pelo actual ministro das Finanças, simultaneamente presidente do Eurogrupo. Como fica a autoridade política de Centeno sabendo-se que está a prazo? E a do Governo, em que é peça fundamental segundo a ortodoxia vigente? Nassim Taleb escreveu em "O cisne negro" constituir "ideia central da incerteza" o postulado que, "para tomar uma decisão, é necessário concentrarmo-nos nas consequências e não na probabilidade". O aniversário do "Público" terá sido a Austrália do livro de Taleb para Marcelo, o lugar onde foi preciso chegar para concluir que não havia somente cisnes brancos no Mundo?

*JURISTA

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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