Opinião

Costa, o homem que passa adiante

Costa, o homem que passa adiante

Vale a pena ler, de fio a pavio, a entrevista de António Costa ao "Expresso" deste fim-de-semana. Quando os jornalistas estiveram em São Bento, ainda decorria a greve dos motoristas de matérias perigosas.

Por isso, na semana anterior, a manchete resumia o "pensamento" do primeiro-ministro acerca da greve que não se sabia se e quando ia terminar: se fosse preciso, os serviços mínimos voltavam a ser maximizados. Foi, na verdade, o ataque mais estruturado e deliberado ao direito à greve perpetrado pelo poder depois do 25 de Abril. Todavia, nesta entrevista é como se a greve não tivesse existido e, com ela, o exercício paramilitar de exibição da autoridade do Estado diante de meia dúzia de homens desarmados.

Aqui já está um dos "segredos" do sucesso de Costa. Houve um problema - um incêndio, uma greve, uma diatribe presidencial inconsequente, uma PGR mais "solta", um membro do Governo desbocado, etc. -, o problema passou e não se fala mais nisso. Costa só está concentrado em como acumular mais poder no passo seguinte, no bluff seguinte. Depois, tem sorte. Em geral, rodeado por idiotas dentro do PS e do Governo (Santos Silva é uma excepção que nem sempre confirma a regra), e ainda por mais idiotas no exterior e na oposição, qualquer manobra vinda dele é invariavelmente tida por admirável. Não porque o seja em si mesma, mas porque não há outra. Costa pode, por exemplo, humilhar os seus actuais parceiros parlamentares - sem o concurso dos quais nunca teria formado governo -, com destaque para Catarina Martins que, se bem o conheço, ele já não pode ver, e mesmo assim trazê-los em rédea curta. Jerónimo bem pode falar em "paciência revolucionária", mas inala-a e engole-a sem hesitações melancólicas.

O primeiro-ministro sabe que a política não se faz com bons sentimentos. A maneira florentina como alude a Guterres, de quem foi secretário de Estado e ministro, é eloquente a este respeito: "não tenho seguramente as qualidades que ele tem, também não tenho seguramente alguns dos defeitos que ele terá". Em Outubro, formará o Governo que quiser e como quiser, ou seja, "governar com as condições que temos". É essa a essência desta entrevista politicamente muito inteligente. Há quatro anos, Costa concorria com um primeiro-ministro determinado e sólido que o derrotou. Este ano é ele o primeiro-ministro e o único a concorrer à sua própria sucessão. Lá pelo meio da entrevista, diz querer garantir "estabilidade na vida pessoal, económica e política" por esta ordem. A mim, basta a primeira. Sobretudo, não lhe exijo mais. E também não me propõem melhor.

*Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia