Opinião

Costa, o populista bom

Costa, o populista bom

Em apenas uma semana, toda uma parafernália intelectualmente preguiçosa ergueu Costa a níveis de um Deng Xiao Ping de Barcelos. E toda a oposição, radicalismo incluído, foi remetida ao papel dos ratos na famosa fábula do defunto pai do capitalismo vermelho e de "um país, dois sistemas".

Ora, aquilo que o primeiro-ministro e o dr. Centeno demonstraram tão eloquentemente é que há um populismo bom, agora que não existe mentecapto nenhum (palavra sublime, como diria Manuel Maria Carrilho) que não traga o populismo na boca para acusar tudo o que os maça ou ameaça por pensar de outra maneira.

Todos os elogios domésticos e alguns, idos daqui, em imprensa estrangeira são a evidência disso mesmo. Com os mecanismos representativos das democracias liberais em queda livre, política, cultural e moral, os detentores efémeros do poder democrático recuam na observação do pluralismo e no respeito pela crítica. E aqueles, nomeadamente os órgãos de comunicação social, que deveriam velar pelo contraditório democrático, são os primeiros a estatelar-se aos pés do mais artificial tacticismo político destinado a preservar o poder a qualquer preço.

É evidente que, não havendo exigência e escrutínio, Costa passa a genial porque os suplanta a todos na sua superficialidade habilidosa. Os exercícios de admiração parola a que temos assistido mais não são do que o produto desse superficialismo analítico e, na sua maioria, de uma imensa pobreza de espírito. Quem não alinha, é "ressentido", "frustrado", "pessimista", em suma, populista. Todavia, no lugar desta gente toda não cuspiria populismo para o ar sob pena de lhes cair direitinho em cima. Senão vejamos. Costa, Centeno e a tagarelice mediática encheram um balão, durante escassos dias úteis e inúteis, para nada a não ser ajudar o Governo a safar-se do desgaste do seu populismo com mais populismo.

A Direita caiu estupidamente na esparrela e os papagaios avençados fizeram o resto. Voltando a Carrilho, estes até garantiram larachas repetidas ad nauseam para entreter a imbecilidade dos públicos, a sua "servidão voluntária", salvo o insuspeito Louçã que trucidou, com números, as contas de Centeno. Não houve Eurovisão no Terreiro do Paço, mas houve Costa e a sua "banda". Jan-Werner Müller afirma que um Governo populista possui três características, a saber, o domínio do aparelho do Estado, o clientelismo e muitos travões à sociedade civil. No caso Costa, alguma "sociedade civil" ajuda alegremente. E, assim sendo, o que é que falta?

*Jurista e membro do partido Aliança

O autor escreve segundo a antiga ortografia