Opinião

Cupidez e insolência

Um livro que me acompanha recorrentemente é o "Dicionário imperfeito", de Agustina Bessa-Luís. Os agentes políticos deviam andar com ele por perto.

A propósito deles, Agustina escreve que "politizar sem instruir provoca a intervenção do mais grosseiro rosto dos desejos humanos". Porque "aparece a cupidez e a insolência, e por aí adiante". Infelizmente, só há disto. O PS - no Governo, na Câmara de Lisboa ou nas televisões - não exibe outra coisa.

O primeiro-ministro recebeu a presidente da Comissão Europeia, que vinha simbolicamente "libertar" verbas da famosa "bazuca". Costa quis fazer uma gracinha e perguntou à senhora se já podia ir ao banco. Nem disfarçou. O "empréstimo" recorrente da monarquia constitucional, e da ditadura republicana do sr. Afonso Costa, apenas mudou de nome e condicionantes. A pendura reles e subserviente é a mesma.

Antigo autarca em Lisboa, Costa aproveitou a ocasião para dar uma mãozinha ao nefando Medina. De acordo com o chefe, as delações ocorridas na Câmara de Lisboa quanto à transmissão de dados pessoais de oposicionistas de governos conspícuos que vivem em Portugal é assunto de balcão "administrativo".

O presidente da edilidade não suja as mãos nisso. E, com a desculpa do voto e de Costa, Medina levou-se a sério e ignorou o que um respeitado dirigente intermédio camarário, sem outra dependência que não o serviço público, formalmente lhe sugeriu.

Perguntar à Comissão Nacional de Dados Pessoais se seria regular transmitir aquelas coisas, por exemplo, à Rússia sem mais. Medina preferiu pedir ao alto funcionário que se demitisse. Ele recusou. E Medina avançou para uma conferência de imprensa vergonhosa onde anunciou a remoção daquele funcionário, e do gabinete responsável pelo controlo das matérias de dados pessoais, para além do "gabinete presidencial" que substituirá por outros "dependentes".

Não informou, nem os jornalistas lhe perguntaram, se o responsável pelas matérias de dados pessoais teria tido o cuidado de capacitar o seu "gabinete". Mas o "gabinete" achou que não era com eles. Não "trabalhavam", palavra de honra, "dados sensíveis". Medina, então, ainda menos.

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Carlos Moedas, depois desta "autoavaliação" estalinista, sem contraditório, afirmou o óbvio. Lisboa já não tem um presidente de Câmara. Entretanto, nas televisões, só passa verdadeiramente "a situação", no apogeu da sua cupidez e insolência. E um PR timorato, assoberbado pela bola enquanto totem e tabu pátrio.

A Oposição "é morta" como Inês de Castro. Não se queixem. É o que escolheram.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Jurista

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