O Jogo ao Vivo

Opinião

Deixem-no trabalhar

O meu primeiro contacto com o partido fundado por Freitas do Amaral, Amaro da Costa e Xavier Pintado, entre outros, foi literalmente exterior.

O meu Pai trabalhava na Baixa lisboeta, e estava com ele ao fim da tarde do dia 4 de Novembro de 1974. Ia ter lugar, no Teatro S. Luiz, o primeiro comício da Juventude Popular. E nós íamos ver. Depois, só me lembro de acabarmos no Largo da Trindade, praticamente gaseados, porque o MRPP interpôs-se entre o acesso ao comício e a rua. Tratou-se de uma acção "revolucionária", que meteu polícia, capitaneada pela hoje jubilada magistrada Maria José Morgado. Na universidade, quatro anos depois, o CDS entrou-me pela sala de aulas de Ciência Política através de Francisco Lucas Pires e Fernando Larcher Nunes. Quantas revistas "Democracia e Liberdade" não fui buscar ao 8.o andar da Rua Tomás Ribeiro nessa altura. Uns meses antes, o CDS tinha largado o segundo Governo do dr. Soares do qual fazia parte. Veio daí uma longa história de ambiguidades na relação com o PS por causa da falácia do "centro", do "rigorosamente ao centro" - que subjugou o partido ao "cavaquismo" e, mais tarde, forneceu deputados "independentes" ao PS, com Guterres, e um fundador ao primeiro Governo de Sócrates, fora as cumplicidades com Belém de Sampaio -, apenas interrompidas pela AD de 1979-1980 e por coligações eleitorais, duas pós e uma pré, com o PSD, neste século. Paulo Portas, após correr com a sua "criação" Manuel Monteiro, em directo para as televisões, transformou o CDS numa coisa unipessoal relativamente bem- -sucedida. As coligações deram-lhe lugares que soube distribuir como ninguém. Como dizia o Vasco Pulido Valente, ao contrário do PS e do PSD, o CDS durante muito tempo não tinha a quem telefonar no país. Portas tratou dessa intendência. De partido de quadros, doutrinário, o CDS passou a "popular", por um lado, e permeável nos interesses, por outro. Os epígonos de Portas, sublimados na figura de Adolfo Mesquita Nunes, lançaram uma bravata inconsequente contra o presidente do partido, Francisco Rodrigues dos Santos. O homem, nem um ano levava de casa, deixada falida e com cinco deputados. Averbara a participação num governo regional e estivera ao lado do presidente da República reeleito. Como afirmou o próprio Portas, noutro contexto, Rodrigues dos Santos pertence ao lado certo das coisas. Nunca o vi com um pé no CDS e o outro noutro lado qualquer. Deixem-no trabalhar em paz e sossego.

Jurista

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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