Opinião

Do cosmopolitismo sem cidade

Do cosmopolitismo sem cidade

Quando o escritor Truman Capote conheceu Edmund White em Nova Iorque, disse-lhe: "você irá provavelmente escrever alguns livros bons, mas, tome nota, é uma vida horrível".

Ambos eram homossexuais. E, não, nenhum deles viveu propriamente uma vida horrível. Salvo Capote, para o fim, que estragou tudo com o seu inacabado "À procura do tempo perdido" sobre a - essa sim, horrível - "vida social" na "Big Apple", "Súplicas atendidas". Simultaneamente existia Gore Vidal, que desprezava mais o primeiro que o segundo, ao ponto de ter comentado a morte de Capote como "um enorme salto na carreira" do falecido. Vidal gostava de política. Criado pelo avô, senador Gore, e chegou a ser candidato democrata ao cargo. Escreveu abundantemente sobre política, e exibe no portfólio uma peça de teatro que deu um filme, "The best man", inspirada na figura de Nixon. O que é que estes três homens tinham em comum para além da opção sexual? Eram cosmopolitas. Em Portugal, o cosmopolitismo tem perna curta e, praticamente, apenas um jardim ao Príncipe Real. A "abertura" que o regime de Abril facultou não se traduziu necessariamente em maior cosmopolitismo. Pelo contrário, talvez paradoxalmente, a ânsia de tudo padronizar, em forma de leis (públicas) para "normalizar" costumes (privados), gerou vanguardas e proselitismos absurdos. Os partidos, como antes a PIDE, entraram pelas camas adentro sem dó ou piedade. E os de Esquerda, como o PC, que perseguia a "diferença" sexual, entraram em força. Apossaram-se de opções sexuais a título de "programas" e de "exclusivos". São "activistas" lá onde os que não são de Esquerda serão sempre "oportunistas". Uns começaram a "lutar" no campo dos direitos sobre costumes ainda concepturos. Irradiam fundamentalmente a partir de um "centro" geográfica e culturalmente definido: Lisboa. Quando muito, o seu proselitismo militante e pernóstico "admite" direitolas que vagueiem pelos mesmos meios. Por outro lado, e no limite do reacionarismo esquerdófilo mais bronco que os "activistas" deixam passar como se não fosse nada com eles, temos um escritor-militar que não hesita em falar de "chaga" aposta a um homem público em concreto. Não esperava, em 2021, que alguém em Portugal se referisse a uma determinada opção sexual como uma "chaga". Os colegas Capote, White e Vidal deste nosso escritor, afinal tão provinciano quanto o mais basáltico Torga, teriam muito a explorar neste cantinho de anões mentais em pontas dos pés para parecerem mais altos (Unamuno). Não estou a falar a pretexto de Paulo Rangel. Estou a falar de nós, da nossa cobardia instintual e intimidatória. Da província que transpira de mais em Lisboa.

*Jurista

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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