Opinião

Dois apontamentos sobre o "Portugal socialista"

Dois apontamentos sobre o "Portugal socialista"

Há medidores de tempos, mas até há dois ou três dias não havia medidores de palavras.

Do alto da mesa da Assembleia da República, porém, o seu presidente admoestou um deputado: "o senhor usa demasiadas vezes a palavra vergonha, não pode, há limites à liberdade de expressão e isto tem de ser travado a tempo". Não, não era nenhum sargentão dos romances de Vargas Llosa, nem mesmo um esbirro do Generalíssimo Trujillo. Trata-se do economista Ferro Rodrigues, ex-MES, ex- secretário-geral do PS, ex-ministro da democracia, ex-embaixador de Portugal na OCDE e, actualmente, pela mão de António Costa e a complacência silenciosa do voto dos deputados desta legislatura, segunda figura do Estado português. A maioria relativa parlamentar do PS aplaudiu o gesto, ou seja, conformou-se com o atestado de menoridade democrática, passado pelo seu presidente, à "casa da democracia". Dos restantes grupos parlamentares não se ouviu um murmúrio, sobretudo dos do que resta da velha Direita entretida com a sua medíocre intendência. Todavia, recordo a todos, para ser insuspeito, palavras de José Medeiros Ferreira. Estamos pouco preparados para aceitar os conflitos e, como consequência, não entendemos o princípio de que "as liberdades públicas são o essencial". O PS sempre teve esta pulsão totalitária (o Medeiros ironizava chamando-lhe um "partido gestionário") de ser "dono" de tudo e mais alguma coisa a começar pelas liberdades. Ferro limitou-se a tirar mais uma conclusão disso. O que se prende com outra situação. Mais de cem jornalistas assinaram por baixo um papel de apoio à directora de informação da RTP para, alegadamente, a "defender" da acusação de censura que efectivamente praticou em relação a uma colega deles, da casa, agindo em causa própria. Só o assunto de "fundo" em que a directora meteu a mão - um instituto "universitário" entretanto encerrado onde leccionava lado a lado com meio regime - dava para outro artigo. Em suma, mais um apoucamento das liberdades públicas e de expressão com a conivência amoral de jornalistas. Como escreveu ontem o director deste jornal, "num Parlamento onde noutros tempos nem os corninhos da praxe faltaram, então por um ministro socialista, onde a mesma palavra "vergonha" anda de boca em boca, parece excessivo querer calar o eleito por uma parte da Nação exaltando os limites à liberdade de expressão". Que já haja jornalistas a exaltar esses limites, é o retrato de um Portugal socialista que ninguém quer.

*JURISTA

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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