Opinião

Dois sinais

O primeiro sinal foi dado pelo senhor reitor da Universidade de Coimbra. A criatura, diante de um plateia de alunos a quem dava presumivelmente as boas-vindas, decidiu ali mesmo avançar com o seu contributo cósmico para a famosa "pegada ecológica".

Assim, o senhor reitor avisou o mundo que as cantinas da universidade vão deixar de servir carne de vaca aos utentes. A vaca, como toda a gente com a antiga 4.ª classe sabe, por força do fenomenal aparelho digestivo e da não menos espantosa digestão (que sabia de cor), é dada a libertar gases que fazem tremer a referida "pegada", assustando o Planeta. Por outro lado, a própria composição da vaca, já em versão bitoque, hambúrguer ou bife à portuguesa, coloca o putativo consumidor em situação de cumplicidade antiambiental com a vaca, o que deve ser reprimido sem hesitações desde o primeiro dente de leite. Que este fascismo higiénico e ambientalista exista - e até seja uma garota meio atravessada de Chucky o seu mais fofo porta-voz - é uma coisa. Outra é a universidade juntar-se ao folclore "correcto" contra as liberdades públicas e privadas, com a desculpa de umas "alterações climáticas" que dividem a comunidade científica mas que dão jeito a qualquer acção política imediata. Costa, aliás, fez logo saber que já mandou retirar a carne dos banquetes oficiais organizados por ele, sujeitando os convivas a peixe. Todavia, a seguir virá o peixe por causa do plástico. Em Coimbra, também houve logo a sugestão edificante da retirada da carne de porco da ementa universitária. E assim sucessivamente. Querem viver num mundo eugenista, estúpido e antisséptico? Eu não. O outro sinal veio da PGR. O mesmo Costa, aquando das notícias sobre o nepotismo governativo, pediu um parecer ao Conselho Consultivo do MP. O parecer veio a público no final da semana passada. Fundamentalmente, a PGR entende, em nome do princípio da iniciativa económica privada, que os membros do Governo não estão proibidos de contratar com empresas de familiares de colegas do Governo. E, se bem entendi, mesmo de familiares próprios desde que "não haja o risco de as empresas, em cujo capital participe, por si ou conjuntamente com pessoas do seu círculo familiar, beneficiarem indevidamente de vantagens". Sanções? A sua aplicação não é automática, e, segundo a PGR, carecem de "procedimento", "ainda que reduzido à sua expressão mínima". O parecer foi votado unanimemente, "sem reservas e sem declarações". Vasco Pulido Valente não se engana: "a unanimidade portuguesa não é um defeito, é um destino".

O autor escreve segundo a antiga ortografia ​​​​​​​

Jurista