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Opinião

Elogio da virtude "reaccionária"

Elogio da virtude "reaccionária"

O "meio" - as nossas "elites" que são, como quase sempre foram, obtusas e oportunistas - agitou-se muito por causa de um artigo de opinião escrito num outro jornal.

Não creio que os leitores estejam interessados na polémica em si. Basta escrever um nome, "Maria de Fátima Bonifácio", num qualquer motor de busca e imediatamente surgirão todos os exercícios de condenação (dezenas, alguns perpetrados por notórios analfabetos) e de admiração (talvez nenhum, ou um ou dois carregados de adversativas e pedidos de desculpa). O meu ponto é outro, e nunca será de mais reforçá-lo nas presentes circunstâncias do país e do Mundo. Não existe delito de opinião. Não podemos repô-lo como previsão não escrita da norma penal, estatuindo publicamente o modo de condenação do "prevaricador": manchetes a anunciar queixas-crime absurdas, debates e comentários televisivos "democráticos" que escondem verdadeiros autos de fé "correctos", membros de órgãos de soberania a inventar uma questão racial como os da I República inventaram a religiosa, etc. A sociedade portuguesa não é mais ou menos preconceituosa que outra qualquer. A França, a da Revolução Mãe disto tudo, ainda há dias viu o seu Panteão Nacional invadido por imigrantes indocumentados. Mas, ontem, a República multirracial lá desfilou pelos Elísios abaixo, mesmo com protestos e gás lacrimogéneo, sem ter sido preciso votos piedosos de circunstância para agradar a ninguém em particular, como cá. Na verdade, a nossa sociedade é, como sempre foi, pouco amiga da liberdade. Existe um "cânone" definido por uma oligarquia político-radical que não permite a dúvida, que tem horror ao pensamento complexo e à liberdade de expressão e de informação. O Estado e a política comportam-se como arrastadeiras desse "cânone" e dos seus oficiantes. Nota-se, sobretudo, no PR que, vindo da Direita, expia diariamente o fardo de não querer desagradar à oligarquia canónica não vá perder um votinho que seja na reeleição. Mesmo que isso signifique, na prática, defender o delito de opinião contra as liberdades públicas de todos, maiorias, minorias ou de uma só pessoa que seja. Escreve Olivier Bardolle que o homem de Direita, perseguido pelo fantasma da sua má reputação histórica, precisa de demonstrar que tem coração. O homem de Esquerda não, dado que encarna o Bem, o que torna o seu proselitismo implacável, dogmático e sem ponta de piedade. Refazer o Mundo ou evitar que ele se desfaça, parafraseando Camus no "discurso do Nobel"? Não hesito.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Jurista e membro do partido Aliança
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