Opinião

Entender Fátima

A semana é marcada pelo centenário das visões de Fátima e pela visita rápida, nesse contexto, do Papa Francisco, que não sai do distrito de Leiria. Há cinquenta anos, tinha sido assim com Paulo VI, que não foi a Lisboa, obrigando o poder temporal a deslocar-se. Marcelo e Costa, aliás, não vão largar o homem, salvo para dormir. João Paulo II era um "mariano" forte que usava a divisa "totus tuus" em referência a Nossa Senhora. Em 1984, consagrou o Mundo ao Imaculado Coração de Maria e esteve cá três vezes. A última, em 2000, foi particularmente importante para a mensagem de Fátima, com a beatificação dos pastorinhos e a "revelação" do "terceiro segredo", o que suscitou, por incumbência do Santo Padre, um "Comentário Teológico da Mensagem de Fátima" da autoria do então cardeal Joseph Ratzinger, documento ainda hoje indispensável para entender Fátima. Francisco não me interessa particularmente. Persisto fiel às premissas essenciais de Bento XVI em relação ao papel da Igreja no Mundo: a Igreja não faz proselitismo e deve preparar-se, sem desfalecimentos ou cedências "correctas", para viver em minoria e nunca em forma de espectáculo. A Igreja é milenar porque "venceu o Mundo e não por ter "cedido" ao Mundo. Francisco, por dever administrativo e porventura pelo lastro latino-americano, quer uma Igreja "descentralizada" onde o poder das conferências episcopais locais aumente diante da "centralidade" vaticana. Sucede que, em muitas dessas conferências, alguns dos seus membros mais parecem "crentes envergonhados que dão as mãos ao secularismo" do que "verdadeiras testemunhas de Jesus Cristo", no "ministério petrino" e ao "serviço da unidade" da Igreja (citações de Bento XVI aquando do encontro com os bispos portugueses em Fátima, a 13 de Maio de 2010, e no livro "Conversas Finais", 2016). Quanto a Fátima, há que celebrá-la todos os dias e não em "tolerância de ponto" para ver passar as pessoas. Volto a Ratzinger no princípio deste milénio ainda tão débil. "Que o maligno tem poder neste Mundo, vemo-lo e experimentamo-lo continuamente; tem poder porque a nossa liberdade se deixa continuamente desviar de Deus. Mas, desde que Deus passou a ter um coração humano e deste modo orientou a liberdade do homem para o bem, para Deus, a liberdade para o mal deixou de ter a última palavra. O que vale desde então está expresso nesta frase: "No Mundo tereis aflições, mas tende confiança. Eu venci o Mundo". (João, 16:33). A mensagem de Fátima convida a confiar nesta promessa".

O autor escreve segundo a antiga ortografia

* JURISTA

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