Opinião

"Este doce país que é Portugal"

"Este doce país que é Portugal"

Não é só no Direito que o decurso do tempo produz efeitos. A ecologia do regime está intimamente ligada à passagem das horas, dos dias e dos meses. E, em particular, este agora gerido por Costa e respectivos comparsas parlamentares. Estão firmes no essencial e quando não estão, ou existe a previsão de poderem vir a não estar, acciona-se o "segundo governo", o que repousa nas bancadas parlamentares da maioria para troca de galhardetes. Por exemplo, cada medida dita de consolidação orçamental mais "europeia" é de seguida lançado um golpe de mão mais ou menos "fracturante" ou demagógico para "compensar" os companheiros de estrada: um cêntimo a menos na gasolina, um Afonso Costa pequenino na Educação, a personalidade jurídica dos animais, a gestação alugada. Até se dá o caso de a "direita" - desde o 25 de Abril reconhecidamente uma das mais oportunistas do Mundo por causa da fantasmagoria estúpida de que nunca se libertou ou tentou sequer assimilar - estender a sua frágil mãozinha política aos colegas da esquerda parlamentar com o sucesso que se vê. Às vezes, não chega. Aí, convoca-se o espectro do "passado" e da "Europa" contra a qual o dr. Costa se bate retoricamente em cada sessão partidária de apoio à sua moção interna. Mesmo sem ser necessário, o próprio doutor Marcelo nunca se priva nos encómios ao Governo propriamente dito (já quanto ao liderado pelo Parlamento e por Catarina por vezes parece timidamente enfadado), desculpando-lhe em público qualquer alarvidade ou imprecisão. José Sócrates, que nesta comédia de enganos decidiu-se pelo papel pífio do ceguinho nas tragédias gregas, resumiu eloquentemente este estado de coisas, no Marão. Trata-se, afirmou ele sem se rir, do "regresso da decência". Não admira, por consequência, que as sondagens indiquem, com ligeiras alterações, resultados parecidos com os de Outubro de 2015. O PS sobe qualquer coisa porque redistribuiu o jogo e, sobretudo, o dinheiro que vai ter de arranjar lá mais para diante. É assim que isto funciona há seis meses: habitualmente como no "doce país" do doutor Salazar. Empurra-se tudo com a pança, com uma comunicação social complacente e com um fingimento sincero e compungido. O lema de Costa é que "não há como um dia depois do outro". A seguir logo se vê, ou "vamos lá a ver", que é a expressão preferida dele quanto não sabe o que há-de dizer. Prefiro, porque certas embora não me consolem, as palavras de Raul Brandão. "Aqui estamos nós, sem tecto, entre ruínas, à espera".

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