Opinião

Farroncas ao centímetro

Farroncas ao centímetro

A coisa começou poucas horas depois de o avião do Papa ter levantado voo de Monte Real. As televisões, com o mesmo entusiasmo de que se tinham servido para acompanhar a comitiva papal desde Fátima até à base aérea, passaram a seguir um autocarro de uma equipa de futebol.

E perguntavam aos circunstantes, como antes tinham perguntado aos do Santuário de Fátima, "o que é que estavam ali a fazer". Na "cabeça" das televisões não houve propriamente uma separação substantiva entre Fátima e o Benfica porque, de uma maneira geral, tudo foi tratado a título de espectáculo com intervalos para publicidade. Mas o pior estava para vir - e para se prolongar - ao final do dia. Num festival de música (estou a ser generoso) ligeira que começou há décadas na Europa da Eurovisão e que, entretanto, já chegou, por exemplo, ao Azerbaijão, um rapaz, para sua desventura perpétua nascido em Portugal, ganhou com uma musiquinha melancólica sobre o "amor" composta pela irmã. A RTP, não obstante o escarcéu, teve menos audiência que a "marcha vermelha" no Marquês de Pombal. Todavia, as orelhas interesseiras começaram imediatamente a erguer-se mal se soube da "vitória" e, consequentemente, da organização do próximo festival aqui no burgo. O cheiro a obras, a "serviços", necessários ou inventados, e sobretudo a festança motivou logo disputas pelo local para a realização do evento. Costa e Marcelo até trocaram SMS para se certificarem mutuamente que estavam em cima do acontecimento. Não só estavam como, numa viagem de Estado à Croácia, o presidente da República anunciou termos todos crescido cerca de 20 cm com mais este extraordinário sucesso nacional. Embalado, Marcelo aproveitou para aumentar igualmente a sua estimativa do crescimento da economia para este ano, colocando a fasquia acima dos 3%. Por cá, a segunda - e triste - figura do mesmo Estado recebeu o cançonetista no Parlamento que, por unanimidade e aclamação, saudou mais esta notável conquista nacional. Não é, pois, de estranhar que o miúdo, sem se rir e sem pachorra para jornalistas, tivesse pedido mais dinheiro para a "cultura". Belém fica para amanhã. Marcelo oferece "selfie" e o seu alto patrocínio patrioteiro e "afectivo", na sua qualidade de mestre permanente de cerimónias de todas as festas e festanças. Num artigo para o jornal "O Dia", em novembro de 1889, António Enes escreveu que "o patriotismo é ter juízo, não é ter farroncas". Muito menos farroncas ao centímetro.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

JURISTA

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