Opinião

Figuras de autoridade

Em Maio de 1993, o "Expresso" perguntava ao então primeiro-ministro se receava que o país já não o compreendesse tão bem como "antigamente". Cavaco respondeu que iria ser "julgado pelos portugueses em 1995".

Acrescentou que ainda não tinha tomado uma decisão - quanto a uma nova candidatura, a terceira - por "não gostar de antecipar decisões", pelo que "só no momento oportuno" se pronunciaria. "Entendo que tenho um mandato até 1995, ainda tenho dois anos e meio à minha frente. Quero cumprir as promessas feitas, ainda falta muito tempo", rematou.

No ano seguinte, estava de visita não sei aonde, e deixou cair que o assunto da sua continuação era "tabu". Que só desfez em Janeiro de 1995. Não se recandidatava a presidente do PSD no mês seguinte. E, por consequência, não seria ele o candidato a chefe do governo em Outubro. Coube a Fernando Nogueira a tarefa anunciada em 1993 de "ser julgado pelos portugueses", com o resultado que se conhece. Agosto de 2021. Outro primeiro-ministro.

O mesmo "Expresso" e sensivelmente as mesmas perguntas. António Costa também não antecipa decisões que só tomará em 2023, negando um "tabu" que, afinal, afirma, já que "ninguém responsável pode dizer, hoje, se em 2023 ainda está em boas condições para ser ele a liderar, ou se já há alguém em melhores condições, ou se o país nem o quer ver".

Para já, os tempos são "empolgantes" e Costa não "imagina" melhor momento para governar do que este. Vêm aí milhões para gerir e distribuir. Costa é vaguíssimo, como sempre, quanto a economia e finanças. E, dado o estado da direita ("o único pântano que existe, fragmentada, sem liderança, sem propostas para o país, sem ser capaz de apresentar uma ideia consistente"), fica a "ideia" que sobressaía do excerto da entrevista publicado a semana passada: "prosseguir" o trabalho de combate à pandemia, "apoiar" o "esforço extraordinário que as empresas e os trabalhadores têm feito para enfrentarmos a crise económica", e é nisso que "temos de nos concentrar".

O resto são "casos e casinhos". Costa representa, indisputavelmente, a única figura de autoridade dentro do PS. E, sobretudo, para a esquerda bloquista e comunista. Quando sair, acontecerá ao partido tanto ou pior que à direita. Daí esta ambiguidade. Porque, permaneça ou não Rio no PSD, a direita, toda, vai ter o seu cortejo barulhento de protolideranças. Costa jogará com isso daqui até 2023. Se vir que, para além do PS e da esquerda, o país o reconhece igualmente como a tal figura de autoridade, fica.

*Jurista

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(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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