Opinião

Governo, a matéria perigosa

Governo, a matéria perigosa

O aviso veio a tempo e horas, vai para quatro anos. Vasco Pulido Valente escreveu no "Público" que "desde a I República que não aparecia um cacique da envergadura do dr. Costa na cena política portuguesa, pronto a meter o país no fundo por vaidade pessoal ou conveniências partidárias".

Pretextando uma greve que, à hora a que escrevo, nem sequer começou, Costa anda a fazer a mais ignóbil campanha eleitoral de que há memória neste regime. O PS e o Governo arranjaram um "homem de palha", um garoto tirado de uma boutique de advogados e de uma secção do PS, e puseram a criatura porta-voz do patronato camionista. Se se reparar bem, o PS da sra. Ana Mendes ou do sr. César - contrariamente aos outros partidos, à esquerda ou à direita, novos ou velhos, que têm exibido toda a sua pusilanimidade neste tema - desapareceu. O sr. André Almeida, o tal miúdo da boutique, e o extraordinário quarteto governativo constituído pelo próprio Costa, por Cabrita, pelo Fernandes do Ambiente e pelo Cravinho da tropa (Pedro Nuno Santos, das Infraestruturas, estranhamente não consta) encarregaram-se de montar a operação de informação e de contra-informação, destinada a criar um ambiente de caos psicológico e material, que as televisões amplificam com dolosa necedade. Apanhados de calças na mão, em Abril, quando estes mesmos sindicatos fizeram um pré-aviso de greve atempado a que o Governo não ligou nada, agora, com a aproximação das eleições, viram nisto um maná para Outubro. Não é todos os dias que se pode colocar funções de soberania do Estado ao serviço das "conveniências partidárias", sob a capa de designações espectaculares como "parecer da PGR", "situação de crise energética", "situação de alerta " ou "conselho de ministros electrónico". Ou violar o direito à greve, como vulgares sargentões latino-americanos, com alegados "serviços mínimos" entre 50% e 100% vigiados por um aparelho policial fenomenal. Infelizmente, muitos compatriotas caíram no logro e foram a correr para as bombas de gasolina fazer figura de parvos para as televisões. Esquecem-se que, até ao primeiro minuto do dia de hoje, este "caos organizado" foi da única e exclusiva responsabilidade de um Governo em ambiente eleitoralista puro e duro. Da Alemanha, Marcelo apenas teve um comentário sobre esta farsa: tinha o depósito do carro atestado para ir de férias. O que deu ensejo a Costa de dizer, sem se rir a não ser de nós e dele, Marcelo, que "o interesse nacional não tira férias". Estão bem uns para os outros.

* JURISTA

O autor escreve segundo a antiga ortografia