Opinião

Indignidade nacional

A tragédia de Pedrógão Grande interrompeu sobretudo vidas. Vidas de famílias inteiras, crescidas ou ainda a crescer, foram cessadas e feridas à porta de casa, nas fábricas, no amanho pobre de casarios, terras e animais ou numa estrada anódina atravessada à hora definitivamente errada. Mas a tragédia também interrompeu, destapando-a, a farsa insolente da vida pública nacional. Os poderes, do político ao fáctico, só estavam prontos para festas e festanças. O espectáculo sórdido, transmitido em directo pelas televisões, foi inequívoco. Num primeiro momento, sobreveio a perplexidade da impotência e da ignorância, traduzida no abraço entre um secretário de Estado e o presidente da República. Como se o governante murmurasse baixinho "o que é que estou aqui a fazer, no meio deste caos: tire-me daqui". O presidente saiu-se com uma tirada memorável em torno de ter sido feito "o máximo que se podia fazer". Catarina, a pequenina hipócrita da maioria, pedia chuva no Twitter. Depois apareceu a improvável Constança de Sousa que arredou o perplexo secretário de Estado para poder pôr-se ao lado do presidente no momento televisivo do "máximo". Soube-se depois deste "máximo" que o multimilionário SIRESP, o sistema de comunicações entre as diversas autoridades afectas à protecção civil, falhou. Costa, o ministro que o contratualizou e implantou na sua primeira encarnação, declarou-o obsoleto, como primeiro-ministro, por lhe faltar a "reforma da floresta". Uma coisa séria e para décadas, e não para encerrar com chave romba, a correr, uma sessão legislativa ou para pintar de verde o "Diário da República". O "máximo" do presidente crédulo ia caindo à medida que o tempo e as chamas continuaram a passar. O que obrigou a oligarquia política, e a sua trupe sabuja, a aplicar o famoso método "passa culpas", preferencialmente para baixo, para o lado e para trás. Marcelo entretanto já quer que se investigue tudo, "sem limites e sem medos". Sucede que o Governo é o órgão superior da administração pública. Destapado, o Estado ruiu na fogueira da sua vaidade política e da sua incompetência envergonhada diante da dignidade dos que perderam tudo. Não esteve à altura nem do sofrimento alheio, nem da prática de muitos dos actos materiais devidos. Mas ninguém conseguiu babujar um pedido de desculpas. Registo esta indignidade nacional a qual, só por si, constitui o "cabal esclarecimento" acerca da natureza torpe de quem nos pastoreia.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

* JURISTA

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