Opinião

A bofetada de luva branca

A bofetada de luva branca

A pobrezinha da nossa vida pública foi recentemente "agitada" por dois pedidos de demissão a meu ver despropositados. João Soares, ministro da Cultura até ao final da semana passada, saiu porque "prometeu" um par retórico de bofetadas a dois colunistas numa rede social. E não porque estivesse mal como ministro da Cultura se levarmos a sério as palavras do seu ubíquo primeiro-ministro. Afinal, a única coisa de "físico" que se seguiu ao texto de Soares no Facebook (do qual evidentemente nada se seguiria como é típico da retórica política ou literária) consistiu na remoção abrupta do ministro a bem dos brandos costumes domésticos que lidam mal com o conflito, mesmo o exclusivamente verbal e inconsequente. Como o ministério da Cultura não tem importância política alguma desde Manuel Maria Carrilho, fico-me por aqui. Já o pedido de demissão do chefe de Estado-Maior do Exército, General Carlos Jerónimo, merece outra atenção. Desde o fim do serviço militar obrigatório por razões "correctas", comuns à Esquerda e à Direita, perdeu-se o "sentido" das Forças Armadas enquanto elemento estratégico de coesão nacional e social. O episódio "Colégio Militar", que terá estado na origem na demissão de Jerónimo, é elucidativo desta cedência progressiva dos responsáveis políticos à ditadura da "superioridade moral" das elites radicais e comunicacionais. Entre a "vociferante matilha do espectáculo", referenciada por Sloterdijk, e a salvaguarda de modelos institucionais estáveis por natureza e dever, o Poder Político já há muito que não hesita. Lê-se superficialmente uma reportagem online mas conclui-se logo que ali há "discriminação", a palavra mágica para qualquer oficiante da "moderna" inquisição. Lamentavelmente o ministro da Defesa foi o primeiro a cair na armadilha das "vanguardas": preferiu a via pública para vexar a hierarquia militar. Logo secundado pelo comandante supremo das Forças Armadas, e presidente da República, que aparentemente não encontrou motivos para não aceitar imediatamente o pedido de demissão do chefe de Estado-Maior do Exército. Não é "popular" falar do Colégio Militar, das Forças Armadas ou usar figuras de estilo como "bofetadas" ou "bengaladas" no contexto meloso e hipócrita da nossa sociedade actual. É mais fácil fazer proselitismo, o que nunca foi o meu género. Na mensagem de despedida que enviou aos seus militares, Carlos Jerónimo acabou por dar uma bofetada de luva branca a quem a merecia. Já ninguém a tira.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Conteúdo Patrocinado