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Opinião

A coligação e as abstracções

A coligação e as abstracções

As trapalhadas do PS deram um lastro inesperado ao Governo e aos partidos que o apoiam. O primeiro-ministro aparece mais em eventos do que em São Bento. Inaugura, palestra, improvisa, ataca, acredita. Recebe o mais liberal dos governantes socialistas europeus que o elogia. Nos seus "roteiros", o próprio presidente da República, sempre acompanhado por um ministro ou vários, não se poupa em incentivos ao desempenho governativo limitando-se a vetar um ou outro diploma ostensivamente mais estúpido. A ministra das Finanças conseguiu transpor o incómodo provocado por Vítor Gaspar para uma coisa quase boa. Ficaria decepcionado se não fosse, pelo menos, a cabeça de lista em Lisboa. É claro que há desastres insupríveis cujo recato se recomenda em plena ecologia pré-eleitoral: o marciano Maduro, a improvável Teixeira da Cruz, o Crato fatal ou o irrelevante Lima. O vice-primeiro-ministro lá vai cumprindo o papel que lhe reservaram, em Julho de 2013, no Hotel Tivoli. Dos chouriços aos sapatos, "vende" Portugal o melhor que pode e sabe. É um sempre-em-pé e, tal como o país que inventou na sua prodigiosa cabeça, está permanentemente "na moda". Na divisão de tarefas cabe-lhe a parte lúdica e a Passos a parte séria. Ambos precisam, em quantidade e qualidade distintas, da coligação. Resta saber como responderão os portugueses a esta necessidade. Para ser bem-sucedida, a maioria - partindo do princípio que vai haver uma coligação - precisa, ao contrário do dr. Costa, de ganhar absolutamente. Não chega aquela lengalenga trôpega de "mais um voto". Mais um voto na coligação, ou no PSD, do que no PS quer dizer nada. Ainda não vi, no meio de tanta tagarelice oficial e oficiosa dos principais tenores governamentais e da maioria, uma vontade firme em estabelecer com o país uma base de solidariedade estratégica. O reiterado recurso a abstracções que nada dizem às pessoas "reais", por um lado, e a deliberada ignorância do mundo do trabalho privado e público, por outro, não "atraem". O investimento e a consolidação orçamental são excelentes mas não votam. As empresas são indispensáveis mas os empresários são voláteis. A balança comercial é muito bonita mas tem dias. O desemprego e a dívida têm todos os dias dramaticamente por sua conta. Tal como os impostos. Em resumo, mais para a "direita" e para abstracções ultraliberais e politicamente débeis a coligação já não pode ir. Experimentem, antes, puxar a vida das pessoas para cima. Talvez seja por aí.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia