O Jogo ao Vivo

Opinião

A Direita branca

O Movimento 5.7., de que sou um dos fundadores, comemorou na sexta-feira, em Lisboa, os 40 anos da apresentação pública da Aliança Democrática. Na altura, sentaram-se na mesa da conferência de Imprensa os presidentes dos três partidos constituintes, o PSD, o CDS e o PPM. Por trás deles, estavam os que tinham pensado a AD com os chefes partidários, nomeadamente Henrique Barrilaro Ruas, Vasco Pulido Valente ou Adelino Amaro da Costa. É preciso recordar, como fez Pulido Valente, que "a "iniciativa" privada, as "competências" e o Ocidente cristão odiaram a AD desde o princípio e não houve argumento, promessa ou pressão que não usassem para a matar no ovo". O ponto era evitar a apresentação de listas conjuntas, o que estava em aberto naquele 5 de Julho de 1979. No fundo, tratava-se de saber se o PSD "dava a si próprio uma possibilidade de ganhar, escolhendo listas conjuntas". Ou seja, Sá Carneiro, o presidente do maior partido da AD, "tinha conseguido reunificar o PSD e formar umas das maiores coligações da história política portuguesa" que, por essa altura, se alargava a reformadores e independentes. Este gesto correspondeu, como escreveu Vasco, à criação da Direita democrática. Ela veio para a rua, "sem disfarce e sem desculpas, e proclamou o seu direito à vida, isto é, a governar sozinha, de acordo com as suas convicções e as suas luzes". A autoridade adquirida pelo seu líder "devolveu-lhe a confiança e a dignidade", e a vitória "acabou de constituir a democracia em Portugal", com verdadeiras alternativas. Dos três famosos "DD", adoptados pelo MFA da "tese" que Medeiros Ferreira enviou do exílio a Aveiro, o segundo, democratizar, deve-se à AD. Porque é que lembro tudo isto agora? Porque estamos a três meses de mais umas eleições legislativas e a Direita, dispersa por três ou quatro partidos, timorata diante de António Costa, nem sequer tem um candidato a primeiro-ministro para apresentar. É, aliás, a primeira vez na história do regime em que só o incumbente concorre verdadeiramente ao cargo. Neste século, só um governo de coligação da Direta democrática conseguiu perfazer uma legislatura e ganhar, sem maioria absoluta e de novo federada sob a égide de Passos Coelho, as eleições seguintes. Mas Costa introduziu a "novidade" da governação sem eleição directa por arranjinhos tácticos. E a Direita ainda não soube responder a isso, como em 1979, com um PS igualmente hegemónico e um PR tão ou mais dubitativo que o de então, mesmo vindo da Direita. Resistência, pois, e paciência.

*Jurista e mebro do partido Aliança

o autor escreve segundo a antiga ortografia