Opinião

A RTP ainda vai precisar de um major Eanes

A RTP ainda vai precisar de um major Eanes

No último debate quinzenal passou relativamente despercebido um momento arlequinesco, a fingir de teatro sério, entre Costa e Catarina Martins.

A Martins, atriz de profissão (péssima, por sinal), mostrou-se "indignada" com um protocolo celebrado em Janeiro entre a RTP e a Federação Portuguesa de Futebol. Quando chegou a vez de Costa falar, a "indignação" aumentou e passou, na inconfundível língua de pau do chefe do Governo, a "perplexidade". Com um papel na mão, Costa informou Martins, e a câmara em geral, que a senhora ministra da tutela técnica da RTP, a Fonseca da Cultura, e o Centeno, da financeira, não tinham sabido de nada. Mas que ele ia saber e, depois, todos tirariam daí as devidas consequências. Ainda a "perplexidade" de Costa pairava no ar, e já a FPF punha publicamente fim ao protocolo. A seguir, o Conselho de Administração da RTP fez um comunicado. E o Conselho Geral Independente - que, nos termos da legislação em vigor, é quem fiscaliza e supervisiona a actividade da Administração da casa desde 2014 - esclareceu duas ou três coisas. A primeira, que o CA da RTP tinha sido intimado a explicar-se por aquelas duas personagens do Governo. A segunda, que tinha tido conhecimento oportuno do protocolo, através do CA, "numa das reuniões regulares dos dois órgãos da empresa". Finalmente, o protocolo, à altura já inexistente por causa da "perplexidade" teatral do binómio Costa-Catarina, fora um mero acto de gestão do CA, desnecessitando ser comunicado a quem quer que fosse. Importa, então, ir ao que interessa, fechada a peripécia zombeteira. O radicalismo parlamentar tem propostas de lei prontas que visam o controlo político-partidário da televisão pública sem reticências. O gesto de Martins, e aquiescência de Costa, releva desse objectivo. A ministra da tutela só fez de ponto. Alegadamente não conhecia o protocolo, segundo Costa. Todavia, foi ela que o fez chegar à Comissão de Trabalhadores da RTP e não o contrário. Volta, assim, a discutir-se o modelo de gestão da empresa concessionária do serviço público de audiovisual, agora sob o signo do sistema cultural totalitário liderado pelo Bloco. Porquê? Porque o regime todo, em 2012, do Bloco ao CDS, se opôs à concessão da gestão da RTP a privados, e à privatização de alguns dos seus activos. A RTP está, assim, mais próxima de voltar a ser controlada pelos politburos partidários, por mais que os bonzos do "conselho independente" se espremam, eventualmente até com razão. Deus não dorme.

* JURISTA E MEMBRO DO PARTIDO ALIANÇA

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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