portugal em transe

Agustina Bessa-Luís e Portugal

Agustina Bessa-Luís e Portugal

No jornal "Público", Vasco Pulido Valente referiu-se à circunstância de Agustina Bessa-Luís não ser um grande autor internacional.

Trata-se, escreveu, "de uma filha de Entre Douro e Minho que nunca percebeu o que ficava para lá das fronteiras em que sempre se fechou", concedendo-se, apesar disso, "uma certa inclinação por ela" e pelo seu "gosto pela retórica". Não suporta a "arquitectura dos romances" e uma coisa que apelida, recorrendo a Borges, de "prosa imperdoavelmente irresponsável".

Julgo importante distinguir estas observações críticas dos derrames melancólicos, alguns pretensiosamente ignorantes, que apareceram nos dias da morte e transfiguração da autora. Conforta-me ler nos magníficos ensaios que Óscar Lopes lhe dedicou as razões, se quisermos, literárias, para ter Agustina Bessa-Luís por um autor forte. Aí se incluem leituras tão inteligentes quanto claras da tal "arquitectura dos romances", ou das personagens, dos sinais e dos sentidos da "irresponsabilidade perdoável" (não estou a fazer trocadilho) da escrita desses romances, na verdade quase todos à volta de um "mote", a incomunicabilidade humana. Como Vasco afirmou numa entrevista em 2009, surpreende-se uma voz própria nela.

A literatura de Portugal é, como o país, uma pequena literatura periférica que nem sequer começou por se escrever em língua portuguesa. Uma literatura ibérica menor, segundo Miguel Tamen, onde, aqui e ali, emerge uma voz, ou mais uma "vozinha" (P. Valente naquela entrevista), sem que daí surja uma qualquer "essência nacional" detectável a partir de ocorrências literárias como Camões, já que é o dia dele, ou Agustina que se espraiou, bem para lá dos seus romances e dos seus personagens, em contos, ensaios, biografias, um guião para filme ("Party", de Oliveira) e uma peça de teatro, "A bela portuguesa". Nem sequer lhe faltou a consagração internacional, dada a tanto literato ou poetastro luso, porque pura e simplesmente nunca lhe fez falta.

Acho que M. Tamen resume bem o ponto da "internacionalização": gostar de "encontrar em qualquer lado o conforto das coisas a que (as pessoas) estão habituadas", um "estilo internacional" como na arquitectura. Ora Agustina é o oposto disto, do hábito. Desconfortável, rija, desarrumada, certeira, ironista intraduzível e universal, ei-la no Funchal, a 10 de Junho de 1981, no Dia de Portugal. "As coisas admiráveis devem sofrer a prova da crítica. Porque assim mais resistentes ficam".

* Jurista e membro do partido Aliança

o autor escreve segundo a antiga ortografia