Opinião

Apita o comboio

O presidente do Eurogrupo, o folgazão Centeno, deu o tom num vídeo em que elogiava a Grécia que saía, salvo erro, do terceiro "programa de ajustamento". Oito anos depois do primeiro "programa", à nora, esmagada, sem chão firme, mas Centeno e o chefe Costa não se pouparam nos parabéns helénicos. Evidentemente, os órgãos de Comunicação Social tradicionais não se deram ao trabalho de comparar este exercício politicamente amoral com o que ambas as criaturas afirmaram, ora por altura do final dos três anos do único PAEF português, em 2014, ora quando se apossaram administrativamente do poder, em 2015, de mãos dadas com o radicalismo parlamentar. Preferem continuar no jogo de sombras com os seus aliados, com a complacência de um PSD cego, surdo e mudo que, fora uma ou duas vozes silenciadas pela incumbência, não se ergueu, como devia, para defender Passos Coelho. A coisa prosseguiu com o embuste da "descentralização" e com o propósito anunciado de rever a fusão de freguesias. Alguns autarcas denunciaram o embuste, isto é, o fruto à partida apodrecido de um "acordo" entre Rio e Costa. Mas apenas Miguel Relvas foi claro, sem temores reverenciais internos e externos, no que era preciso ser claro: rasgar o acordo apodrecido e mentiroso à nascença que só serviu para Costa enfiar o PSD no bolso, alienando uma reforma fundamental para a qualificação do território. Entretanto, o comboio do PS apitou rumo a Caminha parando o tráfego, caótico e ineficiente, da CP no seu percurso em direcção ao caudilho. O PS regressava de férias para um comício de pendor latino-americano em que a palavra de ordem foi ganhar tudo, e absolutamente, como manda o padrão tropical inspirador. Numa sociedade acrítica e desinteressada - fundamental para seres como Costa prosperarem politicamente no meio da acefalia democrática -, o caudilho levou a demagogia estrutural ao paroxismo, como o original Costa da Primeira Desgraça de 1910. Fez nomeadamente promessas fiscais ilegais, no tempo e no espaço, aos emigrantes que queiram regressar ao "nosso querido Portugal", com desprezo total pelos que, aqui, sustentam "as contas saudáveis" através do pagamento dos seus impostos directos e indirectos, que o Governo aumentou. Percebe-se a ópera bufa de Caminha. Costa nunca ganhou umas legislativas ou umas europeias. Está e fica porque o regime todo - da "oposição" colaboracionista de Rio ao presidente oriundo da Direita, passando pelo indispensável e hipócrita radicalismo - lhe dá a mão. Depois não se queixem.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

* JURISTA