Opinião

O caso Marcelo

Numa entrevista demasiado inteligente para os tempos políticos que correm, o deputado Miguel Morgado, do PSD, perguntado acerca de Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou que "a acção do presidente da República podia ser mais atenta, mais eficaz, mais sintonizada com a confrontação dos problemas, e não com a sua ocultação". E acrescentou que "qualquer magistrado da nação, qualquer político não deve estar imune à crítica. E Marcelo Rebelo de Sousa, apesar de ser imensamente popular, não está nem deve estar imune à crítica". Morgado tocou no ponto. A popularidade de Marcelo é inversamente proporcional à sua autoridade política. À força de se banalizar, e de se superficializar em eventos popularuchos, o presidente está na contingência de, semana após semana, repetir "recados". O presidente, comandante supremo das Forças Armadas, viu passar-lhe debaixo dos olhos o furto de material de guerra em Tancos. Foi logo, e inopinadamente, lá. Prometeram-lhe investigações. Passado um ano, a polícia criminal civil já investiga a investigação da polícia militar. Belém faz saber que "quer mais explicações". O ministro da tutela e o chefe militar do Exército "explicam" só o que querem, e quando querem, "explicar". Para a semana, o presidente fará saber que ainda quer "mais explicações" sobre as "explicações"? Reina o caos no SNS, tutelado por um ministério bicéfalo constituído pelo ministro das Finanças e pelo administrativo Adalberto, na João Crisóstomo. Marcelo diz aos jornalistas: "vamos ver". O que é que faltará ver, senhor presidente? É claro que não sabemos o que é que o presidente comunica privadamente ao primeiro-ministro. Em compensação, calculamos que Costa, à semelhança do que faz cá fora, diga ao presidente que o país é de maravilhas. E, o que ainda não for uma maravilha, será até às eleições. Ou seja, Marcelo já foi ultrapassado pelas legislativas do ano que vem. Voltando a Miguel Morgado, ele tem razão quando alerta para o facto de a Direita estar a viver uma das suas piores crises desde 1978. E não vai ser, se for, um movimento novo, numa área mais abrangente que a "Direita", que a agravará, como suspeita Marcelo. Tal como está, no Estado ou fora dele, é que a Direita não pode persistir. Falar para o regime, sem mais, é falar para dentro. Não é falar para diante, para o "partido do povo" silencioso. Marcelo, entre outros, precisa libertar-se da situação. Senão a situação toma conta dele.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

* JURISTA