Opinião

O querido mês de Agosto

A bovinidade típica do mês de Agosto foi abruptamente interrompida pela entrada do Bloco no vasto clube dos "partidos com rabos de palha". O episódio Robles ajudou a reforçar o Bloco como partido pequeno-burguês, literalmente urbano na dupla vertente "intelectual" e imobiliária, ambas declaradamente pouco sérias. Como se isto não bastasse, o líder do maior partido parlamentar e da oposição, Rui Rio, tratou de elogiar a "postura" e a "argumentação" do antigo vereador de Medina. Rio, aliás, fechou o primeiro semestre de presidência social-democrata com um balanço de zero a um, sendo o um favorável ao primeiro-ministro a quem ele estendeu a mão inútil. O que me leva à segunda interrupção no aludido estado de bovinidade canicular. Pela primeira vez, preto no branco, um militante do PSD afirmou alto num jornal o que muitos pensam: a dificuldade de o PSD travar o próximo ciclo eleitoral com Rio na liderança. Ou seja, Pedro Duarte, ex-presidente da JSD, ex-governante e ex-gestor da campanha de Marcelo em 2016, reclamou a saída de Rio e a sua substituição imediata, porventura a pensar nos oitenta e nove deputados de Passos em 2015, uma fasquia demasiado alta para um líder tão timorato como este. Montenegro anda a aboborar mas só para depois de Rio ser derrotado nas legislativas. Duarte, mais previdente e menos calculista, nem sequer quer deixar Rio ir às legislativas. Neste momento, isto também revela que, sem Passos, inexiste uma autoridade indisputável no centro-direita, com um CDS curtíssimo para o efeito e um PSD, ao mais alto nível, apostado em "consensos" improváveis com António Costa. O máximo divisor comum do centro-direita não é Duarte, Montenegro, Cristas ou Pedro Santana Lopes. É Rio que, para usar uma expressão de Marcelo, não é da "família". Lopes, na despedida, entregou uma carta aberta aos militantes sem preocupações programáticas que seriam esdrúxulas no contexto. Era um acto solitário. Daqui por diante, será com certeza outra coisa já a pensar nas pessoas concretas que o regime abandonou ao aparelhismo doentio e auto-reprodutivo. Desde 1979, nos Reformadores, que aprecio muito as ideias de agregar, federar e fazer evoluir o regime, libertando-o de tudo o que embacia a participação popular legitimadora. Como Santana Lopes escreveu, em 2015 acabou-se o mito do partido mais votado. Trata-se agora de "dar força à alternativa que Portugal precisa para substituir a maioria de esquerda". Talvez este Agosto possa vir a ser, afinal, um querido mês.

* JURISTA