Opinião

Os caminhos da Direita

Há mais de uma década, três conspícuos militantes do PS de apelidos Costa, Sócrates e Seguro reuniram-se para decidir quem avançava. Costa sugeriu que o mais bem colocado nas sondagens avançava. Seguro terá esbracejado levemente e ainda "ameaçou". Mas, fora do trio, o agora comentador da "quadratura" literalmente "do círculo", Jorge Coelho, deteve Seguro: "agora é a vez do Zé". E assim foi. Primeiro "o Zé", depois vagamente Seguro e por fim o grande timoneiro do grupinho e actual caudilho. O que lhe falta enquanto cabo eleitoral sobra-lhe em astúcia de bastidores. Não ser sanguíneo como Sócrates, ou sério-frouxo como Seguro, permitiu-lhe um Governo minoritário de legislatura, a condescendência do radicalismo parlamentar e a aquiescência de dois presidentes da Direita. Como Madame de Merteuil, Costa é a sua própria obra imposta a terceiros, ora crédulos, ora complacentes. Aqui inclui-se Rui Rio, o politicamente anulado líder da Oposição e do PSD. Correu para os braços do caudilho para assinar dois pactos que manifestamente ninguém interessado leva a sério. Tem com ele uma espécie de "contrato" não escrito, declinado do que Costa inventou para os seus outros dois camaradas em 2004. Repare-se que Rio, nos raros murmúrios críticos do Governo, nunca aponta Costa. Está lá para o que der e vier, isto é, para o que Costa lhe der. Por isso, Costa comporta-se como Salazar diante de António Ferro: está e fica como se ameaçasse nunca vir a deixar de estar. Perante este descalabro, a Direita mexe-se dentro e fora do PSD. Dentro, fazem-se fatos e barbas à medida de líderes difusos por vir. Preparam-se prosas que se aliviam nos jornais, em entrevistas espúrias e em charlas nas televisões. Outros ainda nem sequer sabem se vão a provas. Tudo com os olhos na previsível remoção de Rio depois dos actos eleitorais de 2019. E todos sem cuidar das Europeias de Maio, o primeiro choque com o país como um todo e que se limitam a preparar como mais uma eleição paroquial, com a gente amesendada em Bruxelas há demasiado tempo. Quem não perceber que os caminhos da Direita passam, em primeiro e decisivo lugar, pela eleição de Maio, não percebe nada. Ao menos a "Aliança" de Pedro Santana Lopes, em rápida cibernética, já indica, até pelo que recusa, um caminho. As pessoas, essa grande preocupação do "passeio público" partidário corriqueiro, virão naturalmente a seguir. Mal andaria a "Aliança" se começasse pelo fim.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Jurista