Opinião

Bom proveito

A desova das eleições europeias, vista pelo lado das percentagens obtidas e número de votos, foi celebrada por três partidos. Só um deles, o PAN, tinha efectivamente motivos para celebrar.

O PS e o Bloco, parceiros nesta legislatura atípica, saltaram respectivamente do "poucochinho" para o "pouco mais que poucochinho", e Marisa Matias arrastou, por mérito inteiramente dela, o sr. Gusmão de assessor no PE para eurodeputado. Para Costa, chegou e sobrou. Deu-se, aliás, imediatamente ao luxo de desprezar os actuais companheiros de estrada parlamentar em benefício elogioso dos animalistas naturais. A ambiguidade ideológica do PAN - tão acefalamente celebrada na figura do sr. Silva, que se transformou, em dois dias, no melhor deputado da legislatura, o que diz bem do estado de exigência a que tudo chegou - é oiro sobre azul para o primeiro-ministro, o campeão da duplicidade e da ambiguidade políticas.

É que o PS que venceu é o mesmo que bloqueia, através da Segurança Social e depois de lá ter colocado os seus caciques, a vida de milhares de pessoas no activo ou as que esperam há mais de um ano pelas reformas. É o PS que, por entre omissões e cativações, põe em causa o SNS de que se imagina, desde sempre, o "dono". É o PS que se esteve nas tintas para o investimento público e que agora o proclama como prioridade eleitoralista. É o PS que assiste impávido e sereno à sucessão de endogamias socialistas repugnantes, algumas do foro policial e criminal, e que descobriu anteontem, sem rir ou chorar, que vai "combater a corrupção". É o PS que enfiou a sua nomenclatura em transportes públicos a exibir passes sociais mais baratos, mas que obrigou o seu mais lúcido elemento no Governo a pedir desculpa aos utentes pelo caos instalado nos comboios, nos barcos e nos metropolitanos. Isto enquanto um secretário de Estado, qual Maria Antonieta à moda do Minho, recomendava aos transportados para se apertarem mais um bocadinho e andar de pé nos barcos como andam nos autocarros de frotas reduzidas.

É este país político real que vai a votos, de novo, daqui a quatro meses e no qual a Direita dita alternativa conta pouco. Sem lideranças com autoridade política, já que a pouca que tinham desapareceu, sem entusiasmo ou coragem para impor rupturas que a Esquerda jamais proporá, esta Direita autofágica, e de "agendas" que nunca foram as suas, é o melhor passe social de Costa em Outubro. Bom proveito.

*Jurista e membro do partido Aliança

o autor escreve segundo a antiga ortografia