O Jogo ao Vivo

Opinião

Cavaco e o "Grande irmão"

Cavaco e o "Grande irmão"

O regime do dr. Costa e dos seus "parasitas" parlamentares é o que há de mais parecido, em trágico-cómico, com o livro "1984" de George Orwell e com a sua personagem central: o "Grande irmão". É vê-los, ouvi-los e lê-los. São depois revistos e aumentados pela "polícia do pensamento" que se espraia pela redacção única - dominante no grosso da Comunicação Social - a partir do "ministério da Verdade" e do "ministério do Amor", o que mantém a "lei e a ordem". "1984" pode declinar-se num "2017" português, escrito a várias mãos, o equivalente a uma biografia não autorizada do que para aí anda. Isto porquanto a Oposição, para além de enxovalhada diariamente pelo primeiro-ministro e por mais gente infrequentável, tem-lhes feito o favor de ajudar no guião em vez de fechar definitivamente o ciclo encerrado com a queda do XX Governo no Parlamento. Não admira, pois, que a maioria e os seus "polícias do pensamento" tivessem reagido a Cavaco Silva com a boçalidade insegura de quem supõe ter o rei na barriga. Já a Oposição, privada de arrojo e de iniciativa, "colou-se" a Cavaco com o entusiasmo pueril de quem não sabe fazer o trabalho de casa. Sucede que Cavaco falou sobretudo para o país, como tem feito desde 1985, apelando ao realismo democrático dos agentes políticos e à contenção espectacular no exercício de funções públicas relevantes. Recorreu, respectivamente, aos exemplos da Grécia e da França. Não "substitui" nada nem ninguém. É, todavia, uma voz. Não é propriamente uma vozinha. O pessoal dos "ministérios da Verdade e do Amor" agitou-se para "defender" a sua maioria, talvez porque precisava enfiar meia dúzia de barretes. E para "defender" o actual presidente, para eles um novo género de "príncipe do povo", como a real defunta britânica, mimado de amor político serôdio pelos mesmos pernósticos que glorificavam o dr. Soares cada vez que ele sovava, em linguagem chã, Cavaco Silva. Ou, mesmo, o agora presidente quando ele era apenas comentador. Cavaco Silva estará, contrariamente a todos os que o antecederam, sujeito a alguma medida especial de coacção em matéria de liberdade de expressão pública individual, como Marcelo pareceu sugerir com aquela treta do "respeitinho"? Não suportaram que ele se erguesse contra o tacticismo mais rasca, o curto termo comunicacional mais comprometedor e a ruína do princípio da realidade. O "Grande irmão" do Orwell não sabia que tinha tantos irmãozinhos portugueses. Estão apresentados.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

JURISTA